Gastei as minhas horas em intento,
De forma leviana e sem critério,
Nunca pensei que fosse assim tão sério,
Que a falta dele ia ser tormento.
Eu lembro com saudade e não lamento...
Era sempre sereno e comportado.
Pensava que o teria sempre ao lado,
A passos lentos e sem sofrimento.
Eu cria piamente no advento,
Em cada novo dia que nascesse,
E à tardinha quando ele morresse,
As horas ficariam no fermento...
Mas ele nunca teve tal portento.
E lentamente eu pude perceber,
Que morre todo dia, e quer morrer.
Crer no domínio é grande desalento.
Ele viaja nas asas do vento,
Só conseguiu ser brisa lá na infância,
E mesmo assim por mera circunstância,
Que a impaciência argüia o pensamento.
Agora é nebuloso e fumarento,
Querer o sol é pura ingenuidade,
Torna-se o tempo, rude tempestade,
E envelhecendo fica-se ao relento.
Atenta ao precioso lenimento,
Cultivo com ardor, minha esperança,
Que um dia, além, eu possa ver bonança,
Depois da tempestade e o aceitamento.
Acorrentada arrasto a dor e tento,
Manter acesa a luz fiel do amor,
Porque sem ele a vida é sem fulgor,
E neste tempo almejo um cumprimento:
- Ganhar em nova vida, novo tempo!
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