terça-feira, 15 de abril de 2008

A DOR DO AMOR QUE SE ACABA

Todo casamento que "acaba" já se acabara muito antes.
O amor é um sentimento tão forte que, até para admitir
o seu término, precisa de tempo.

Quando algo estoura ou vem à tona é porque
de há muito borbulhava, subterrâneo.
Aceitar que o amor acabou é tão difícil como admitir
a sua existência!

Fico a pensar nos quilômetros de discussões com as quais milhares de casais disfarçam o amor que começa a terminar, ou já morreu e começa a tresandar.

Penso na dor sorrateira e covarde do amor que
começa a acabar.

Penso no sentimento de perda que se instala até nas relações que se tornam frias e distantes.

Sofro por pessoas que estão trilhando o doloroso caminho da descoberta dos impasses com o ser amado; as que estão descobrindo defeitos, desencontros, impossibilidades de encaixes e de suplementação
nas relações.

Penso nos que estão tentando gostar, já não mais conseguindo.

Compadeço-me dos que colocam flores e esparadrapo
na própria decepção ou no cansaço de suas relações rotinizadas, robotizadas, endurecidas,
cristalizadas, congeladas.

A dor do amor que não se realizou gera doloroso sentimento de perda.

A perda prescinde do amor.
Até onde este não mais existe, ela dói e machuca.
O sentimento de perda transcende o amor.
Talvez seja até maior, como sentimento, que o amor,
pois o sentimento de perda perdura,
a despeito de haver acabado.

Sente-se a perda da pessoa a quem se amou
e sente-se a perda do amor.
O que dói no amor que termina não é o fato
de ter acabado.
Nesse sentido é até alívio.

Dói o fracasso do que poderia ter sido;
os cacos do que, mal ou bem,
foi construído em comum; é a contemplação da morte através da verificação da existência de uma pessoa
em nós e no outro que já não existe, que mudou, transformou-se e cresceu ou apodreceu e piorou.

A gradativa aceitação da inexistência do amor
é ferrugem existencial difícil de ser aceita.

Por isso o amor passado é dotado de muitas caras e, para se proteger dessa ferrugem, admite crescer
em outras direções, igualmente prazenteiras:
a da amizade, do carinho, da compreensão.
Talvez.

Sem comentários: