"É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”."
Clarice, simbiótica Clarice. Trecho de um texto colado como parte do programa de uma peça que fiz, há anos atrás. Engraçado isso, há anos atrás, e as questões sempre tão recorrentes. Eu me lembro de uma estória que li quando era pequena, uma estória infantil sobre um camaleão que saía de casa e ia mudando de cor para agradar a cada amigo que ia encontrando no meio do caminho, e acabava estressado e se dando conta de que é impossível agradar a todos, e que o importante mesmo é fazer o que se tem vontade. Eu acho que fui como esse camaleão, durante muito tempo na minha vida, tempo demais. Cheia de desejos de corresponder às expectativas, de fazer o que esperavam que eu fizesse. Um medo infinito de dececpcionar os outros, quando eu nem sabia ao certo que outros eram esses, nem a importância real que tinham pra mim. Quanta gente tentei agradar sem nem saber o porquê, quantas vontades eu fiz sem que fossem as minhas, quantos caminhos mudei para que me vissem como eu queria ser vista. Distanciei-me durante tanto tempo do que eu era de verdade, do que era importante, a tal ponto que em determinado momento eu já nem sabia mais o que eu queria, e o que era máscara. E o outro caminho era tão mais fácil, deixar que me vissem como o que sou e pronto, sem subterfúgios, sem mentiras. Incrível como a gente foge dos caminhos mais simples, e sempre para um dia, lá adiante, depois de muito bater cabeça, voltar para o mesmo ponto. Um belo dia cansei. Chega de máscaras, cansei de jogar, se a brincadeira é essa estou fora, já deu pra mim. Não estou mais nessa de viver para os outros, de estender as mãos esperando uma migalha de reconhecimento, um elogio de esmola aqui e um afago na cabeça acolá. Não sou cachorro para sair abanando o rabo depois de ganhar um biscoito. Cansei de olhar pra fora, o barato agora é aqui, olhando para dentro, perdida nessa escuridão que pode ser assustadora, pode ser confusa, pode ser insana, mas é minha. Já passou da hora de me entender comigo mesma, saber que no final das contas é isso aí: a gente não tem contas a prestar, a não ser a si mesmo. Do lado de fora, a loucura é geral, esse mundo todo ao contrário exigindo demais e oferecendo de menos. E deixando de lado tudo o que é importante. É como as coisas funcionam, mas e daí? Se não é isso que eu quero pra mim, não é e ponto. Meu caminho sou eu quem faço, e não adianta reclamar depois, as escolhas fui eu mesma quem fiz. Sabendo ou não, não importa. Melhor que seja consciente, então. Melhor que seja de verdade, que seja inteiro, da boca pra fora não funciona. Tem que vir de dentro. Que no final das contas, quando todo o resto se cala, é a cabeça no travesseiro e você, só você. Não se trata mais de boa nota, de aceitação, não tem nada a ver com o que se vê de fora, o buraco é mais embaixo, bem mais. Doar-me a mim mesma, e me permitir. Seja lá como for. Simples, na teoria.
Sem comentários:
Enviar um comentário