segunda-feira, 11 de agosto de 2008

MEU PAI A Presença Constante

Foram poucos anos que eu vivi com ele,
apenas até os meus juvenis treze,
mas foram tão intensos, tão profundos
e sinto que, vivendo, descobri o mundo.

Era alto, esbelto e elegante,
trajava sempre o seu talhado terno,
camisas brancas, gravata combinando,
assim se despedia de nós e ia para o trabalho.

A religiosidade era na vida a seta que indicava
a nós, seus filhos, o caminho dos passos a trilhar,
a fraternidade e o respeito ao próximo,
esses os princípios que o seu viver pautava.

Era severo e nos cobrava, com rigor,
empenho nos estudos,
pois definia como a melhor herança a deixar,
aquela forjada no esforço próprio como escudo.

Venceu na vida assim, com o trabalho duro,
arrimo de família completou apenas o primário,
mas nem por isso abandonou o gosto à leitura,
autodidata escreveu um livro, plantou árvores
e formou, até quando pôde, os filhos.

Era um poeta e versejou seus versos
cantando a sua terra, seu amor à mulher-
amada, amante e companheira-
a dedicação aos filhos sempre em nexo
com seu fervor cristão, e o amor à natureza.

Amante da boa música ele se transmudava
quando à noitinha, chegando em casa,
depois do jantar, em torno da mesa,
reunia os filhos formando a bandinha,

um era o clarinete
revezando-se como violonista,
outro o flautista,
eu a pianista, ele o bombardão,

e no intervalo da orquestração,
soltava o chiste para a cantora:
"essa austríaca desafina mais
do que inhambu na cria"
e todo mundo ria...era só folia...

Suas viagens, de todo fim de semana,
nos levavam e conduziam à magia
do trem madrugador da Sorocabana,
para Itanhaém sua terra, sua esperança,

e lá então voltava a ser criança,
e eu o acompanhava em toda romaria -
fieira de peixe-galo, marisco, ostra lá na ilha,
ou bagre, canoa rio acima - essa a pescaria,

depois do almoço, do peixe frito
no fogão à lenha,
degustado e acompanhado da manema,
era no quintal a nossa lida,
recolher folhas secas, arrancar tiriricas
até à exaustão...e fim da tarde,
todo o entulho juntado num montinho
ardia o fogueirão, estava escrito,
fazer fumaça pra espantar mosquito.

Ah! para versejar Meu Pai
preciso escrever além da conta,,
pelo tanto que a presença dele
faltou e faz falta em mim...

num sopro momentâneo ele partiu
assim, como um passarinho
alçando vôo livre,

mas sua presença, embora ausente,
ainda é e sempre será constante,
porque nos seus versos,
e agora nos meus,
ele ainda vive!

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