Quero, Senhor, contemplar seu presépio.
Quero entrar na noite de Belém, quando você nasceu, Jesus, lá naquela periferia, num lugar indigno para tão sublime nascimento.
Mas, fico ainda pensando na noite das belas teorias que não abrem portas nem janelas, de gente trancada em si mesma. Isso é muito triste, Jesus, porque pessoas assim não sabem o que é a brisa leve de sua Aliança de amor.
Fico uma vez mais pensando na noite dos que acham que a vida foi feita só para si mesmos, são egoístas e não sabem o que é relacionar- se na gratuidade do amor. Jesus, você nasceu pobre e foi colocado num coxo.
Hoje há crianças que nascem e são colocadas na caixa de papelão ou jogadas fora. Objeto descartável. Vida descartável.
Será que não melhoramos nada, e as portas que se fecharam aquela noite para você, Jesus, continuam fechadas entre nós? Mas dizem que a humanidade se desenvolveu tanto! Então, Jesus, eu não entendo esse desenvolvimento que descarta a vida, que joga fora seres humanos como se fossem descartáveis.
Será que a rejeição continua a acontecer entre nós?
Há festas, alegria e regozijos. Eu sei, Jesus, que você não reprova nada disso. Mas reprova quem não escuta o grito da criança que suplica à sua mãe: “Mãe, quero comer... Estou com fome!” E a mãe nada tem para matar a fome do filho que chora. Ela lutou, Jesus, e lutou muito, saiu de manhã e voltou à noite da luta pela sobrevivência, mas nada conseguiu. Muitos nada conseguem. Há palácios que esbanjam, que tudo conseguem mesmo às custas de pisar no irmão.
Há palácios tão pobres de vida, porque neles não existe amor, partilha, solidariedade. Há barracos iluminados, cheios de luz, como a eternidade que é só dia, porque mesmo na luta incessante há o desejo da vida e o desejo de deixar viver.
Mas a noite ainda continua entre nós, Jesus. Se houvesse verdadeira partilha não seria mais noite, tudo seria dia, luz, imensidão. As avenidas das cidades, tão iluminadas, tão cheias de encanto, talvez tenham se esquecido da periferia, do casebre feito de restos e de sobras, da janela sem cortina, do quarto sem guardaroupas, de crianças dormindo no chão. Quero celebrar sim seu Natal, ó Jesus, sem deixar de enxergar a noite da humanidade, e quero viver seu projeto Redentor que gera vida, amor e a tudo invade com sua luz. Jesus, quero contemplar seu presépio, seu nascimento, sua luz, seu Evangelho libertador, para que não haja mais noite na vida dos homens e das mulheres. Amém!
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