quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MUTAÇÃO

A noite engole o dia
Chega calada em seu manto
Vai se espalhando por cada canto
Entoando seu canto.
Saio da minha reclusão a seu convite
Meu corpo inteiro se agita
Arrepios tantos me tomam conta.
Olho pela fresta da janela
De maneira fugaz e amedrontada
Deparo aterrorizado com tamanha lua
Que se insinua de maneira cálida
Brincando de mistério com a noite.
Pulsa meu coração indolente
Enquanto um frio me trespassa.
Quero me esconder onde nunca me encontre
Mas o clarão da lua me atinge
Feito rajada de fogo
Envolve-me e atiça.
É mais forte que eu esse carinho da lua
E me envolve em sua teia.
Tudo começa a se transformar em mim
Pelos que nascem vigorosamente
Presas que rasgam sob meus dentes
Corpo que retorce e contorce
Tomando forma descomunal.

Já não sou eu mesmo!
A noite em suas brincadeiras com a lua
Deixa suas marcas tantas em mim
Agita a fera guardada por dentro.
Esqueço-me nesse enlevo
Atendo o brado calado da lua
Bestial e brutal eu fico
Nos uivos e urros que trespassam minha garganta.
Sou metade de tudo agora:
Homem revestido de fera
Estou vencido... Perdido!
Lanço-me pela noite
Atendendo ao pedido da besta que se agita em mim.
Sinto sede do licor nefasto
Na presa inerte, eu me refaço
Mato minha sede e deixo destroçado
Depois me afasto a “galopes”
A noite e a lua já se despedem
Eu me recolho e me desfaço
Desse monstro que está em mim.
Numa metamorfose dolorida volto a ser eu mesmo.
Ainda sinto o gosto de sangue na boca
Caio em desespero
Até que a noite chegue de novo
E a lua me convide em seus desejos.

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