sábado, 23 de agosto de 2008

Casulo de saudades

Quando sua presença vem

nítida em minha mente,

e os pensamentos visitam

a alma,superando o pensamento

é hora de reverenciar minhas emoções.

No meio da mata o sabiá

cantando me chamando,

canta alegremente

acordando minhas recordações.

Me traz as saudades da infância

férias na fazenda,

café no bule, broa de fubá,

animação da garotada,

vovó contente com a casa cheia,

não se importava com tanta algazarra.

No meio do laranjal

a criançada brincava despreocupada

nem via a lida pesada dos que

aravam a terra para plantar.

Saudades dos banhos de cachoeira

nas tardes quentes de verão,

passeios de charrete,

voltas no velho caminhão,

quando íamos na vila buscar

mantimentos para alimentar

a peonzada e matar a fome da

criançada,éramos tantos...

Nem sei se me lembro mais

tantos primos e primas,

tios e tias, todos a nos

proporcionarem ferias

inesquecíveis.

Triste era depois voltar

para os estudos e a vida na

cidade grande, a capital.

Nas noites enluaradas

fazíamos uma grande fogueira

e meus tios com suas violas

cantavam suas modinhas

canções da velha Pátria

a Itália querida,que ficou

além mar.

para os casais dançarem,

e as saudades matar.

E nós a molecada

preparávamos caveira

de abóboras,colocávamos

lamparinas ou velas dentro,

para os mais pequeninos

no meio da noite escura,

assustarmos....

Eita época boa!Como dizia

o boiadeiro, o velho Tião

eita tempo bão!

No casulo de minhas saudades

ficaram para trás,recordações

imortais, como a história dos

meus avós paternos,

que se conheceram, se apaixonaram

nos porões do navio, que os conduzia

a terra prometida, Brasil.

Mas ao receberam seu quinhão

o destino os separou,

indo cada um para um roçado,

uma vila distante, nua, pobre

para uma vida de sonhos

e de ilusões recomeçar.

Perdidos de vista,

sem se importar, os corações

mantiveram-se apaixonados.

E quando meu avo veio a

primeira vez a vila de Itaguassu

acompanhado do seu pai,

vender o milho e o café,

essas duas almas gêmeas

se reencontraram,

e não se separaram mais.

Foram 52 anos de feliz união

12 filhos que lhes seguiram os passos,

aprenderam que na honestidade

se pode viver abençoado, e para meu

maior orgulho, o único filho que se

formou foi meu amado pai.

Que veio para a capital

o filho casulo, o mais destemido

em cima de um cavalo baio

para aprender as letras,e como

aluno aplicado, por uma boa

família foi adotado e logo

ganhou uma bolsa no internato

São Vicente de Paula,

onde orgulhosamente recebeu

sob aplausos o diploma

tão sonhado.

Ah! Pai querido!
Quanto orgulho tenho de você,

homem dócil, valente, que mesmo

o destino cruel, roubando-lhe a

visão de repente, nunca esmoreceu,

junto à minha querida mãe,

venceram todas as batalhas,

e fizeram de mim uma rainha

do meu irmão um rei...

pena que seu reinado durou pouco,

hoje anjo também, sinto que dos

céus os três me abençoam

e eu respondo Amém!

São nos casulos das saudades

a força que tiro

para sobreviver e não me abater.

Transformo em flor,

o dia que vou viver, florescendo

a cada novo amanhecer.

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