sábado, 13 de setembro de 2008

SOBRE ALEGRIA E AMOR

Assim como é preciso alguma crueldade para viver,
assim como há sempre alguma agressão embrulhada
em qualquer vitória, assim, também,
a alegria precisa de alguma inconseqüência.
De outro modo, restará apenas a lucidez,
que é sempre repleta de "trágicos deveres".
Libertando-nos da plena consciência, a inconseqüência
nos permite alguma alegria possível.
Por isso o amor não está ligado à alegria.
É que o amor não busca a alegria. Busca a felicidade.
Os que buscam a alegria devem desistir do amor.
O amor é um sentimento ligado à lucidez,
aos trágicos deveres,
à renúncia, à compreensão das contradições.
Amor é empreendimento da mais difícil das escaladas,
a que tem como meta não chegar a parte alguma, talvez.
É, sim, capaz de suscitar aquele sentimento que se mistura absolutamente à vida, tornando-se corriqueiro, natural, mal percebido, quotidiano, sem grandezas,
feitos extraordinários, emoções particulares ou excitantes. Mas permanente. E feliz.
O amor, só ele, mantém juntas as pessoas
que já não dependem das hipnoses do próprio
sentimento para senti-lo.
No dia em que elas descobrirem o amor que estala
dentro da relação aparentemente pacificada,
talvez comecem a descobrir a beleza, a grandeza
e a profundidade do que têm em comum.
Só aí sentirão as emoções verdadeiras do mais profundo,
difícil e complexo dos sentimentos.
Aqui reside, pois, a complicação do amor.
Ele só é descoberto quando ultrapassa o amar.
Só aparece quando a perda ameaça se instalar.
Só se torna visível quando ameaça desaparecer.
Está onde menos se espera.
E é profundo, vital, doador, salvador.
Independe de exaltações.
Como fonte, flui sem parar. Sereno.
É preciso muito viver, muito desilusionar-se, muito gostar,
muito sentir, muito experimentar, muito perder,
muito entediar, muito renunciar,
para encontrar o próprio amor.
Falo do amor guardado não se sabe em que dobra da gente

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