Não mandem calar minha saudade agora,
busquei o mundo, fiquei tanto tempo fora...
Ponham copos nesta mesa abandonada,
onde jogamos cartas e destinos.
Não abram as janelas já tão carcomidas
pelo tempo passado - pó da vida,
desta casa que gentil nos abrigou
em algazarras inocentes de meninos.
As gavetas devem estar abarrotadas
de tanta coisa inútil e empoeirada:
poemas murchos, flores ressecadas,
entristecidos, à espera de algum gesto.
Não acendam a luz, meus pés conhecem
o vício dos degraus, os corredores,
as portas que abrem sempre suas asas
aos quartos amplos e acolhedores.
Ouço risos de crianças pela sala,
sempre correndo em busca de emoções,
sobre colchões rasgados, desbotados,
deslizando num já gasto corrimão.
Nas paredes há sombras que estremecem
com o bater dos corações - velhos rumores,
que um dia preencheram minha infância
e me mostraram um mundo de bonança.
Quero sentar-me no colo da mamãe,
adormecer com histórias do papai
e despertar ao som dos passarinhos,
que cantavam saltitantes nos beirais.
Agora parto, saciada de fantasmas:
são eles que abrem a porta do jardim
e ternamente beijam minhas faces.
Já vou. Já vou. Só vim saber de mim.
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