sábado, 20 de setembro de 2008

Reencontro

Não mandem calar minha saudade agora,

busquei o mundo, fiquei tanto tempo fora...

Ponham copos nesta mesa abandonada,

onde jogamos cartas e destinos.





Não abram as janelas já tão carcomidas

pelo tempo passado - pó da vida,

desta casa que gentil nos abrigou

em algazarras inocentes de meninos.





As gavetas devem estar abarrotadas

de tanta coisa inútil e empoeirada:

poemas murchos, flores ressecadas,

entristecidos, à espera de algum gesto.





Não acendam a luz, meus pés conhecem

o vício dos degraus, os corredores,

as portas que abrem sempre suas asas

aos quartos amplos e acolhedores.





Ouço risos de crianças pela sala,

sempre correndo em busca de emoções,

sobre colchões rasgados, desbotados,

deslizando num já gasto corrimão.





Nas paredes há sombras que estremecem

com o bater dos corações - velhos rumores,

que um dia preencheram minha infância

e me mostraram um mundo de bonança.



Quero sentar-me no colo da mamãe,

adormecer com histórias do papai

e despertar ao som dos passarinhos,

que cantavam saltitantes nos beirais.





Agora parto, saciada de fantasmas:

são eles que abrem a porta do jardim

e ternamente beijam minhas faces.

Já vou. Já vou. Só vim saber de mim.

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