terça-feira, 16 de outubro de 2007

EU NEM SEI SE SOU FELIZ

É noite, bem tarde da noite
Eu sentado com as pernas estiradas
Sobre um banquinho esquisito feito por mim
Aqui nessa varanda
Vejo a forte chuva que desaba.
Fico me perguntando
Se as folhas das árvores
Estão alegres ou se estão sofrendo.
Alegres por estarem sendo banhadas
Sofrendo devido o peso da água que cai.
Essa será uma longa noite.

São gotas grossas pesadas
O respingar nas poças
Pareciam ser como vários bailarinos
A pipocar num palco.
Que lindo! Que lindo!
Era um ritmo alegre, porém desordenado.
Era a natureza se manifestando.

Seria tão bom se nessas chuvas,
Apenas águas caíssem,
É lamentável, mas os barracos nos morros
Também caem, desabam,
Destroços rolam morro abaixo
E junto com eles, várias vidas se perdem
Várias vidas ficam sem abrigos
Várias vidas são castigadas
Pela mãe natureza.

Mas se por outro lado,
Tivéssemos governantes sérios,
Não existiriam mais barracos,
Tantas e tantas terras desocupadas
Eles não se preocupam
Em fabricar moradias para essa gente,
Essa gente que mal tem o que comer.

São tantas essas pessoas
E trabalham como as outras
Mas só que seus trabalhos,
São trabalhos simples,
Trabalhos humildes
Pessoas que nem mesmo o primário
Conseguiram concluir.
E é por isso que são simples
E suas simplicidades,
Não lhes dão o direito
De possuir uma casa de alvenaria
Eles moram e criam seus filhos
Em precários barracos.

Quantas e quantas vezes
Já subi no morro para brincar
Eu, hoje saio do apartamento em que moro
E subo o morro pra namorar.
É mesmo! Eu já tenho uma namorada
Mais velha, bem mais velha do que eu,
Mas tenho! E que namorada!
São pessoas humildes que me tratam
Como se eu fosse um príncipe.
Acho que eu viveria melhor
Se fosse assim como eles, simples!

No morro, não importa se é branco se é negro
No morro onde come um come todos
No morro criança é criança,
Aprende a respeitar a pobreza e a riqueza
Aqui no asfalto,
Quando criança,
Mais se aprende é ficar longe da pobreza
Não a respeitando e sim, desprezando-a

Aqui no asfalto,
Temos muito que aprender com o morro.
Lá, se carrega água na cabeça
Não falaram que a escravidão tinha acabado!
Mas lá no morro eles fazem o mesmo
Que os escravos faziam
Só que agora, não são apenas os negros,
São brancos também,
Brancos assim como eu,
Homens, mulheres e crianças
Cada um carrega sua água.

Porque de tanta pobreza no Brasil,
Existem tantas terras para serem plantadas
Existem tantas terras que não se usa pra nada
Porque os governos, não doam pra essa gente,
É só construir casas com água encanada,
Eles não mais teriam que por uma lata na cabeça
E morro acima se sacrificarem
Para terem água para beber,
Água para fazer comida
Água para tomarem banho.
Eles teriam uma casa um quintal
Uma varanda assim como a minha
Um banheiro... Uma cozinha.

E ainda vejo minha irmã reclamando
Para não lavar a louças
Reclama e cobra, sua festa de quinze anos!
Aqui temos uma cozinha com pia,
Um banheiro com um boxe e uma banheira
E minha irmã reclama
Pobre menina metida a rica!
E eles? Eles nada disso tem,
E estão sempre sorrindo
Estão sempre cantando
Mesmo nesse sacrifício de vida,
Eles sorriem, não sei se são felizes,
Eu nem sei se sou feliz!
Mas vejo, observo calado
Esse sobe e desce de gente
Que mais parece viver no século da escravidão
Será mesmo que a escravidão acabou?

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