Naquela manhã, a Primavera chegara, vestida de luz, de cores e de alegria, entornando perfumes sutis, desabrochando as flores e vestindo as árvores de roupagens verdes.
Era, no entanto, um espetáculo grandioso, onde brotavam flores radiosas e o canto dos pássaros enriquecia o abrir da minha janela.
Naquele momento, levantei de um sonho e por instantes não temi acordar.
No entanto, ao colocar os meus pés naquele chão frio gelei até ao íntimo da minha alma, e nesse estranho momento cheio de ritos e ternura saudei a realidade.
Naquele dia, assim como todos os outros, peguei num pacote que envolvia um número de jornais e, corri o mais que pude, entre flores perfumadas até a rua principal que nos levava a praça.
Como sempre chegara no momento certo, a minha presença despertava a vida na cidade; as portas se abriam, as janelas também, e as crianças corriam para as escolas.
Naquele dia, as pessoas não carregavam consigo aquele olhar pesado, aquele andar tão rápido que nem as deixava sentir, aquele silêncio que dizia muito, e calava muitos outros, tudo, mas tudo estava certo, nesse momento, nesse dia...
No final da tarde, quando as pessoas regressavam as suas casas e as suas famílias, eu subia a rua principal, com os meus pés pequeninos, e levando comigo a sujidade da cidade e o suor do meu cansaço, ansiava por chegar a aquele "ermo" a quem eu calorosamente chamava de casa.
Trazia comigo a alegria de ter vendido todos os jornais, e um pedaço de pão que a mulher do padeiro me dera em troca de serviços.
Era a única refeição que tinha, mas era o bastante para me sentir farto e saciado.
No final do dia, antes de me deitar debrucei-me sobre a janela, e agradeci a mãe natureza pelo calor que me agasalhava, pelas flores que me faziam companhia, e pelo sol e a lua que eram a minha luz de cada dia.
E, subitamente quando já não esperara ninguém recebo a presença de um pássaro branco cujo o nome não sabia, e nunca soube.
Este, olhava para mim, e inclinando o seu frágil pescoço para a esquerda, e para a direita fitava os seus olhos nos meus, somente no ato da minha entrega ao mundo da fantasia, este deixava-se voar.
Nesse momento, fechei os olhos e desejei viver aquele momento todos os dias da minha existência.
E assim o foi, em todas as primaveras e em todas as noites.
Aquela presença fez brotar em mim o sentido de sonhar, crescer, lutar, viver, querer...
E foi essa presença que fez de mim um escritor...
Comecei a escrever, coloquei todos os meus gritos de liberdade, os meus medos e desejos de igualdade... no papel.
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