Não há delícia maior do que perceber alguém nos escutando, com toda a atenção.
É um prazer encontrar uma pessoa que
acompanhe cada palavra do que estamos dizendo e é capaz de nos compreender –
com todo o coração.
Se é bom ser escutado, também é ótimo escutar,
estar disponível para o outro, com toda a tranqüilidade.
“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma”,
escreveu o poeta português Fernando Pessoa sob o pseudônimo de Alberto Caiero.
É isso – silêncio dentro da alma.
Não dá para escutar ninguém se os pensamentos estão nos atropelando sem cessar,
se estamos pensando no que temos de fazer daqui a pouco.
É preciso estar calmo, aberto,
atento ao momento presente para poder ouvir com atenção.
“Escutar é uma experiência transformadora. É testemunhar a existência”,
diz o psicólogo e professor paulista Miguel Perosa.
Ele garante que aprendemos muito sobre nós mesmos
ao ouvir os outros...
Quando a gente ouve alguém com atenção, dá o sinal verde para a pessoa se abrir.
A relação de troca que se forma então é muito mais
rica e profunda...
Escutar é mesmo um grande exercício – que, infelizmente, poucos dominam...
Saber escutar é esquecer um pouco de si mesmo enquanto o outro fala.
Quem fala demais não deixa o outro falar.
E, é claro, não abre espaço para ouvir.
Para desenvolver esse silêncio interior,
tão necessário para o florescimento dessa arte, existem vários caminhos.
Alguns podem aprender a escutar ouvindo com atenção os sons da natureza:
o murmúrio de um rio, o barulho da chuva.
O compositor carioca Tom Jobim, por exemplo, aprendeu a ouvir com os pássaros.
Ele costumava se embrenhar pelas matas brasileiras
munido de gravador e flauta transversal.
Queria justamente atrair a atenção dos passarinhos para depois escutá-los com calma.
Jobim acreditava que as aves emitiam o canto mais sagrado
da natureza.
Para ele, todas as melodias provinham daquele cantar.
Escutar os pássaros, então,
funcionava como um exercício de refinamento interior,
além de aprimorar o ouvido.
Diante deles, a ansiedade desaparecia para dar lugar ao encantamento.
Finalmente, conseguia ficar em silêncio, sem dar um pio.
E depois aplicava esse aprendizado ouvindo atentamente as pessoas...
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