Era uma fria noite, as ruas sem nenhuma alma, o vento soprava levando folhas caídas, uma torrente chuva descia sob o céu. Silencio. O frio era de arrepiar a alma, gotas d'chuva brilhando sobre a calçada. O silencio não existe. O som tem significado e ele respira nas folhas, nas chuvas, no vento. Você nasce do silêncio. São um mesmo espelho de água. O reflexo de nós mesmos espalha-se a cada instante.
Tudo que fazemos é algo atraído para nós, novamente. Essa atração é de uma natureza instintiva e involuntária.
Voltando a história... O ar que envolvia as ruas da cidade era mórbido... As aves noturnas rasgavam os céus com suas asas de liberdade e seus gritos sombrios. Sentado numa calçada debaixo de uma velha árvore e não tão distante, um garoto chorava, sonhava. Seus sonhos, seu desejo eram sentidos em suas lágrimas sinceras. O choro silente.
Atrás dos muros, pelas janelas à luz de várias casas, ouviam-se sorrisos, vozes exaltadas, viam-se rostos felizes através das vidraças. Era véspera de ano novo. Um garoto chora, perdido nas lembranças, abraçando seu melhor amigo, um cachorro que ganhara de sua boa mãe antes de falecer. Ela sempre o dizia que nunca deixasse de sonhar e ter esperanças, porque eles, em algum dia, levariam-no a algum lugar secreto. E dizia que sonhos são como rosas que fenecem, mas que podemos colocar outras em seu lugar.
A imagem de seu pai era destruída, aos poucos, pelo álcool. Seu pai era uma aberração humana. Bebia, excessivamente, gastava a pouca economia que tinha com bebida e em prostíbulos. Ele abusava de suas mulheres da vida, pois para ele, elas não passavam, apenas, de objetos sexuais, venais e violência ao corpo. Aqueles corpos delicados e surrados, seus seios grandes e rijos, suas nádegas carnudas... Seus passos abafados sempre perdidos nas sombras.
Seu pai, ainda, abusava-lhe a inocência e sua infância. Os sonhos se perderam nesse nevoeiro. Um silêncio estava a nascer e crescer na alma até envenena-la, a consumir a vida e transforma-la em uma monstruosidade.
Um garoto chorava, sonhava. Queria desaparecer do mundo. A chuva consumia suas lembranças, seus sonhos. Seu mundo era agora ruínas perdidas... Um mundo que as mãos humanas tocam em tudo e transformam em cinzas, dor, medo que assombra a vida apodrecendo todo sentido de viver... Viver, comer, beber, amar, sonhar, morrer... O que mais nos resta?
Um garoto chora, sonha e a chuva... Dizia, a sua mãe, que a chuva era lágrimas de orações que os anjos da guarda derramavam dos céus sentindo que alguém precisa deles.
Entre os trovões e o silente choro, ouviu-se um disparo na escuridão. Lá, caídos no chão, estavam o garoto e o cachorro ensangüentados, mas o garoto parecia sorrir.
Subitamente, a chuva acalmou-se e desapareceu, junto com o garoto e o cachorro. Dizem que foram levados a um Mundo distante onde viverão para sempre.
De repente, podemos ver que a felicidade é, apenas, um momento breve que sentimos nos envolver é quando encontramos a verdadeira natureza dentro de nós mesmos.
Somos como folhas caídas no outono, às vezes frias. Às vezes esquecidas, às vezes maduras ou podres até a alma. Moldamo-nos a uma imagem perdida de perfeição. Somos criaturas, feras intocadas por ela, assim e só assim vemos a besta que fomos e somos. Mas, não diferente de qualquer um. Perdidos na escuridão de nossas identidades e nossos verdadeiros corações, nós não somos nem melhores e nem piores do que os genocidas, homicidas, latrocidas e suicidas. Somos tão superficiais quanto às máquinas. A nossa natureza de criar é a mesma de destruir. Somos, apenas, carcaças podres nas ruas de perdição. Somos, apenas, criaturas ignorantes que não enxergam o que há ao seu redor. A alma humana é tão poluída quanto o ar que respiramos.
Com tudo, o que é a vida se somos ínfimos para ela?
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