sábado, 18 de agosto de 2007

Poderia ser real

Conheci-te na Net.
Solitária e numa fase ruim do casamento, apeguei-me a ti, como náufrago a uma tábua de salvação.

Apesar de seres bem mais novo que eu, eras o meu confidente, porto onde ancorava minhas tristezas diárias e exorcizava os meus medos e todos os meus demônios.

Todas as noites, religiosamente, a não ser que houvesse algo de extraordinário, nós nos encontrávamos no icq ou no MSN.

Éramos amigos. Contávamos tudo um ao outro. Eu te contava meus planos, minhas decepções, falava do marido, dos filhos. Tu me falavas de tua mãe, da saudade do teu pai e irmã, ambos mortos, da tua solidão. E me contavas tuas esperanças, teu dia de trabalho, teus estudos (direito) e até mesmo as tuas aventuras amorosas... todas.

Maluco como só tu, falavas das tuas idas ao “Sofazão”, uma casa de swing, em Porto Alegre, dos motéis, das gurias conhecidas nas salas de sexo do Uol, de como foram as noitadas em que tu tentavas esquecer a timidez e a depressão... Contavas até mesmo os detalhes dos encontros.

- "E aí, guri? Saiste com a tal que conheceste na sala de francês"?
- "Hum, hum... Fomos ao cinema".
- "E depois"?
- "Depois, tentei levá-la prum motel, mas não deu. Ela não quis".
- "Hum... Ficaste sozinho de novo? Mas bah, 'fica triste não' ".
Dentro do peito, suspiro fundo de alívio!

Porém em outra ocasião:

- "Bah, amado, por que não apareceste ontem? Esperei-te até tarde"!
- "Adivinha! Saí com uma guria... e foi ótimo"!
- "Mesmo? E depois"?
- "Combinhamos sair de novo no 'findi'... Mas sabes? Acho que não vou não".
- "Por que? Não gostaste dela"?
- "Gostei, mas não dá pra ficar namorando só por namorar... Ainda mais com uma guria que conheci no Uol".

– Graças a Deus, pensava, ainda não é desta vez que ele vai se amarrar.

Mas, um belo dia:
- "Oi, Guriazinha. Adivinha: arranjei uma namorada". <:o)
- "É, guri? Que bom! Fico feliz por ti".

Mentira pura. Coração apertado, inveja, tristeza. Sorrizinho desenhado no pc - J e choro contido dentro do peito. Medo grande de perder-te, de que me “trocasses” pela namorada nova... afinal, ela era real e eu de "bites".

E tu dizias: "Bem capaz! Tu és a minha amada e pronto. Mulher nenhuma vai me separar de ti".

Segredos, confidências, visitas a salas de bate-papo e conversas que julgávamos “obscenas”, mas que, ao mesmo tempo eram tão pueris, tão bobas, tão gostosas, como simples e divertidas travessuras de crianças.

Paradoxalmente, sempre falávamos de Deus: fazíamos orações, trocávamos palavras gentis. Um consolo, uma risada, uma lágrima, emoção à flor da pele. Coração batendo forte, tão forte, a cada entrada na Net... a cada vez que, no icq, surgia a mensagem: “the user Gaucho is on line”.

Ah, guri! Meu guri amado!

Tu, sem saber como eras cruel, seguias me contando coisas. Detalhes das tuas intimidades com a “outra” e eu, o coração ferido, corroído de tristeza e de vontade de que fosse eu aquela com quem tu ficavas.

Tu, com o teu “e eu a ti” em resposta ao meu “eu te amo”, foste deixando que eu construísse em minha mente o sonho louco de que eras, ou de que poderias ser, qualquer dia, de alguma forma, de qualquer forma, “meu”... Meu o que? Sei lá! Amigo, amado, amante “namorante”: namorado-distante.

Longas conversas ao telefone...

- "Como tu estás? Sa(LLL)dades de ti, guriazinha!"

Tu, sempre tímido, diante da minha risada escandalosa. Assustando-te quando eu fazia alguma brincadeira e queria que tu me respondesses:

- "Bah, guria! A mãe tá aqui do lado! Tu não tens jeito!"

Um dia... um dia, assim do nada, disseste: "Terminei com a 'talzinha' – E sabes? Vou até aí te ver!"

Quase não acreditei...

- "Juras? Vens mesmo? Quando?"

Comecei a planejar a tua vinda meses antes. Como ia ser, o que iríamos nos dizer, como seria o abraço do encontro, os passeios que faríamos: na Pampulha, iríamos ver o Museu de Arte, a Igreja de São Francisco, a Casa do Baile... iríamos às compras na Savassi, à missa na Catedral de Lourdes... tu tb irias ao culto comigo. Oraríamos juntos. Iríamos à Ouro Preto, claro! Imperdível pra quem vem a Minas, quanto mais a um católico, pois lá tem dezenas de igrejas barrocas. Domingo, depois da Igreja, iríamos à feira de artesanato na Afonso Pena.

E, assim como a raposa ensinou ao Pequeno Príncipe, eu te esperei: “se tu dizes que vens às 5, já às 3 começo a te esperar”, antecipando a alegria do encontro, contando os minutos para o momento do abraço. E, já antes de te encontrar, antevendo a saudade após tua partida, que eu julgava iria ficar ainda maior.

Mas eu nunca poderia imaginar que seria como foi! Pensava que encontraria o “amigo” com A maiúsculo, o companheiro de tantas noites e tantos finais de semana de confidências e brincadeiras... mas acabei encontrando não o primeiro, mas o último amor da minha vida.

A primeira coisa que fiz, ao te encontrar no aeroporto foi, justamente, brincar. Abracei-te com força, toquei a ponta do teu nariz, ri muito, disse que a gente poderia sair dali e ir “rolar umas pirambeiras” (= ribanceiras), que era a nossa metáfora para dizer que íamos rolar um por cima do outro, nas nossas conversinhas “pseudo-eróticas” na Net.

Tu, tímido, meio calado à princípio, parece que logo te sentiste à vontade, contagiado por meu sorriso, pela minha tagarelice, minha espontaneidade, meu jeito de falar ‘”italianado”, pegando no interlocutor, agitando as mãos... mas contagiado principalmente, eu acho, pela real alegria que os meus olhos demonstravam por te ver.

E eu achei que fosse só isto... Em casa, depois de deixar-te no hotel, comentei com o meu marido: “Eu gostei muito do guri... tanto quanto achei que gostaria.”
Mas... mas, tinha gostado muito, muito mais do que pensei ou do que deveria.

No dia seguinte, a ida a Ouro Preto, com minha irmã e meu cunhado dirigindo. Nós dois no banco de trás do carro, olhando não para as paisagens, mas nos olhos um do outro. Mãos dadas, riso fácil.

Tu dizias: “Mas bah! Nem acredito que estou aqui, contigo, guriazinha! Deixa-me beliscar-te.” Minha irmã olhando, desconfiada, pelo retrovisor.

Na cidade histórica, mil passeios, confidências, lembranças, dezenas de fotos. O almoço gostoso, comida mineira que tu adoraste, caneca de vinho, felicidade pura por estarmos juntos.

Dois dias depois, chimarrão na cuia ( que tu me ensinaste a preparar, seguindo todo o ritual quase sagrado que o preparo da erva tem para o gaúcho) passando da minha para a tua mão, conversamos muito, em minha casa... Manhã tranqüila, nós dois sozinhos, esperando os meus filhos chegarem da escola a fim de almoçarmos e depois tu e eu sairmos para mais uma "tournê" pela cidade. Tu querias conhecer tanta coisa!

Eu te enchendo de perguntas, “inticando” (implicando em "gauchês) com os teus regionalismos:

- "Mas “bergamota” é lá nome pra se dar a uma mixirica?"
- "Falas tão bem, empregando lindamente o 'tu', mas dizes 'vou ir'... Isto é redundância. Dois tempos do mesmo verbo."
- "Cuca" que eu conheço é só a do Sítio do Pica-Pau Amarelo... isto que chamam de cuca no sul, pra nós, mineiros, é apenas rosca."
- "Cacetinho" pra mim é outra coisa... hehe!"
- "E cusco? Conheço cuzcuz"... risos

A conversa tomando um rumo mais sério, mais íntimo...

- "O que tu pretendes fazer da tua vida agora?"
- A"A mãe? Como está de saúde? Mais conformada com a morte do teu pai?"
- "E os concursos? Trabalho? Faculdade?"
- "Tens ido à Igreja? Tens te lembrado do nosso Senhor?"
- "Como tu estás, de verdade, meu guri? Ainda deprimido?"
- "Vem...'te senta' aqui, perto de mim... põe a cuia de chimarrão aí na mesa..."

E, sentada no braço da poltrona em que tu estavas, mergulhei os dedos nos teus cabelos recém aparados.

Só pretendia fazer-te um carinho, juro! Carinho de amiga, um afago gostoso, um cafuné, feliz por poder estar perto do amigo querido, de poder, enfim, dar rosto, toque, cheiro (ah! O teu cheiro de Senhor N!), consistência, ao nick.

“The user gaúcho” do icq, o “católico” do chat, não estava mais “on line”, mas ali, pertinho de mim, em carne, osso, sangue e batimentos cardíacos, que eu quase podia ouvir.

- "Que bom que estás, aqui, guri..."
- "Bom demais estar contigo, guria... saber que és de verdade."

Ah... a tua voz cantada, o sotaque tão lindo, o português tão correto, sem retirar os “esses” e sem tropeçar na concordância, coisa tão difícil em segunda pessoa:

- "Tu és exatamente como eu pensava, guriazinha. Divertida e inteligente. E bonita também!"
- "Bonita, eu? Na minha idade? Mentiroso"!
- "C’est vraie! Et je t’aime, lisieux, ma petit garçonete. Je t'aime avec l'amour très pür et vraie du monde” - falando francês, um biquinho acentuado pra pronunciar “lisiê”, teu sotaque era ainda mais bonito!

Olhos encontrando os teus, de repente, atraindo-me feito imã. E, sem perceber, neles me afoguei... Encontrei-te... perdi-me...

Olhos castanhos e amendoados, claros, sinceros e brilhantes.

A carícia nos cabelos passou a se estender... pela testa, pelo rosto, dedos contornando a boca, desenhando-te. Uma das mãos no teu pescoço, inclinei-me e disse ao teu ouvido, repetindo várias vezes: - “Guri...guri... meu guri amado”.

E aí eu me lembro que beijei teu rosto muitas vezes, que beijei teus olhos semicerrados, sempre dizendo: “meu guri...gurizinho querido... eu... eu quero”...

- “Dize, guria”.

- “Eu quero te beijar na boca!” - Não disse, não. Só pensei.

Mas, assim pensei e já colei a minha boca à tua. Sorvi teu hálito, bebi tua saliva na boca morna e amarga do mate... e, para sempre, ali selei o meu destino ao teu.

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