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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

DELICADEZAS

Quero canteiros de miosótis delicados e azuis
Não a força amarelo-ouro dos girassóis
Quero notas sustenidas e bemóis
Não o som dos dós e fás, tão guturais
Eu quero a brisa das manhãs nos cafezais...

Eu quero as cores delicadas do arco-íris
Não explosões de cores fortes do verão
Quero as estradas silenciosas, cerração,
Quero o sereno dessas noites outonais

Ver as montanhas, horizontes das Gerais
Não praias quentes, nem areias escaldantes
Apenas breves lapsos, instantes
De suavidade e de emoções leves e lindas

Apenas quero primaveras, borboletas,
Doces trinados em campinas verdejantes
Não quero mares, mas lagoas transparentes
Quero meu nome sussurrado por teus lábios
Quero cantigas, quero teus conselhos sábios
Quero viver nos braços teus, eternamente.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

SABEDORIA PROVERBIAL

1 - Quando criança, acredita:
Todos, absolutamente todos
os teus sonhos, serão possíveis...
Nenhum deles há de se perder
nas curvas do caminho.
Segue, no solstício,
á procura dos teus limites.
Busca, portanto, nada menos
que o impossível.

2 - Quando adolescente, crê:
Mesmo que batas a cabeça,
que estejas à toda hora,
a quebrá-la contra
intransponíveis muralhas,
os teus progenitores,
tal qual anjos protetores,
atrás, ou adiante de ti estarão,
a guiar-te os passos.

3 - Durante a tua adolescência, percebe:
É imprescindível que traces
os caminhos através
dos quais tu andarás.
Prepara a tua bagagem,
que as estradas da vida
são longas e áridas...
Constrói pois, o teu aprisco,
onde possas descansar
ao fim da jornada

4 - Durante a tua juventude, lembra-te:
De nada te valerá o fato
de te manteres fiel
a todos os teus ideais
se, por um único dia,
te deixares encantar
pela serpente das paixões mundanas,
se permitires que os teus olhos
se deslumbrem pelo luxo,
pela mentira e pela vaidade.

5 - Na tua maturidade, atenta:
Constrói uma família sólida,
base feita de rochas,
a fim de resistir às intempéries.
Foge das malhas do mundo,
da falácia dos inimigos,
das conquistas levianas,
de todas as falsas e vãs promessas...
Dentro de um vaso precioso,
guarda todos os teus tesouros,
(não ouro e prata, mas valores eternos)
contra todos os ataques do destino.

6 - Durante a tua maturidade, pára e atenta:
Não te deixes enganar
por falsos cargueiros,
por embarcações que parecem ser capazes
de carregar todos os teus sonhos.
Lembra-te de que imagens
(de alabastro ou não)
são frágeis,
costumam ter pés de barro...
E que longe, no horizonte,
todos os barcos parecem
românticas gôndolas.

7 - Quando chegar a velhice, estejas certo:
É chegada a hora de atravessares
a ponte que se estenderá
entre ti e o teu criador.
As fendas que cobriste,
com cuidado e zelo,
durante toda a vida,
transformar-se-ão nesta ponte,
sólida e inabalável...
Garantia de acesso
à morada do Pai.

8 - Finalmente, lembra-te:
Todo aquele que passa pela vida
apegado a coisas vãs
e curvado diante de falsos ídolos
tem sobre sua cabeça
uma espada desembainhada
que pode cair a qualquer momento
decapitando todos os nossos anseios
e tornando inútil
toda a caminhada.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

ANDORINHA

Dizem que uma andorinha,
sozinha não faz verão...
por isso é que a pobrezinha
arrasta a asa no chão,
pra erguer a irmãzinha
que morreu, sem proteção.

Nem o homem sobrevive,
sem ter amor, companhia...
não aguenta a solidão!

Portanto nós precisamos,
estar sempre em sintonia
com a alma do nosso irmão.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ASAS CORTADAS

Veloz, o carro vai...

e no seu rastro

fica o passado

- curto -

de um menino.



O sangue escreve

no asfasto fervente

história demente

de enredo tão breve.



Felizmente

o pequeno anjo

(mesmo cortadas

as asas)

tem destino

certo.



Quanto a nós,

cidadãos,

temos o sangue

do inocente

em nossas

mãos.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

MUSA DA RUA

Seminua
barrigão à mostra,
umbigo saliente
sob a blusa
tão apertada que amassa o seio...

Bonitas pernas,
soltas, andarilhas,
apesar das cicatrizes...
feridas de que?

Dos cacos de vidro
que cobrem as ruas,
de pedras, porretes,
das surras dos pais,
ou do companheiro,
menino também
mas que sabe bater
e que diz que aprendeu
só pra se defender?

Menina franzina
com outra menina,
coberta de panos,
que leva nos braços
e outra no bucho...
vai logo chegar.
E ainda sorri
ao pedir o “trocado”
pra ela é pecado
até mesmo chorar.

Menina, menina...
que fazes na rua?

Devias estar
numa cama de nuvens
coberta de estrelas,
sonhando com fadas,
princesas, dragões...
Teu corpo, menina,
não é para os bancos
das praças, calçadas,
faróis, estações...

Devias sonhar,
até mesmo acordada,
os sonhos amenos
de toda menina,
mas estes... ah, não!
Não sonhos que brotam
(talvez pesadelos),
do saco com droga
que apertas na mão.

Tu és Cinderela,
porém tu não sabes.
Apenas percebes
os vultos à volta,
insultos, revolta,
casebres, favela.
Teu maior desejo
não é ser princesa,
mas ter uma vida
feliz, de novela.

Que fazes, menina,
de noite, na rua?
Teus olhos deviam
olhar para os lados
e ver o teu quarto
pintado de rosa,
cortinas azuis...
Porém tua vida
só tem duas cores:
o preto da pele,
que assina tua sina
e o branco dos homens
que exploram, menina
tua vida, teu corpo,
tua mente, trabalho.

Colorido?

Apenas a blusa
amarela que usas...
o rosa encardido
do teu par de meias...

Ah!
E o sangue
vermelho
que corre em tuas veias…

terça-feira, 17 de junho de 2008

CINZAS

Nasci no seio da noite, alheia às cinzas, quarta-feira, varal de serpentinas.
Nasci de amor descompromisso, sozinha, me criei.


Nasci madrugada pós carnaval, orvalhada e serena, silenciosa.
E sei que vou passar a vida toda buscando entre máscaras diárias,

o teu riso-cuíca perdido nalguma confluência de avenidas.

Fico agora, fiando momentos, arabescando frases,

grafando poemas com gravetos na areia molhada que o mar vem lamber...



Sabendo que não vou, nunca mais, te esquecer.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

BALADA PARA OUTRAS ISABELAS

Olá! Eu vim lhe contar

um pouco da minha história...

Peço atenção, seu “dotô”,

um instante, não demora...



Meu nome não é Isabela

nem “caí” de uma janela

do quarto no sexto andar...

(será que pensaram, os insanos,

que ela sabia voar?)



Não moro num prédio equipado,

não tenho motos, brinquedos,

nem piscina pra nadar...

Eu brinco, às vezes,

nas poças de chuva,

com gatos, latinhas,

bolinhas de gude...

isso quando não tenho

que a mãe ajudar...



Não sei dançar, e não brinco

como menina educada,

porque aprendi, desde cedo,

lá no morro onde nasci,

que não importa o sexo da criança:

menino ou menina, a experiência,

é viver o teatro

da sobrevivência...



Não me chamo Isabela...

nem fui morta (ainda)

por meu pai ou madastra...

mas morro um pouco,

a cada dia,

quando sou espancada.



E morro também,

assim, engasgada,

obrigada a me calar

quando tenho mãos sobre mim...

nem sempre a me sufocar,

mas explorando,

de um jeito esquisito,

que nem entendo direito,

o meu corpo sem contornos...



Meu nome, não é Isabela...

Não tenho cabelos lisos,

nem tenho olhinhos espertos...

Ao contrário: meus olhos são opacos,

talvez, por não querer enxergar

minha dura realidade...



Também não faço teatros,

lá no palco da escolinha

... isso não é para mim...

Quando vou à escola,

é somente pra comer

a merenda que me dão...

pois muitas vezes, em casa,

não temos sequer o pão...



O máximo que sei é correr:

morro abaixo, morro acima,

entre os carros dos sinais...

para ganhar um trocado,

ou para fugir dos adultos,

que insistem em me machucar...



Eu não me chamo Isabela...

mas, como ela,

(ou até mais!)

eu sofro... e diariamente...



Tenho marcas de pancadas,

queimaduras de cigarros,

tenho ossos fraturados,

boca sangrando, hematomas,

que mãos e pés gigantescos

me provocam sem motivo...



Não morri, como Isabela...

Ainda não... mas irmãos,

amiguinhos, conhecidos,

eu sempre vejo morrer...



Quem matou? Nunca se sabe...

“ele caiu”, “tropeçou”

“queimou-se por acidente”

“estrupada?”, “coitadinha”...

“não fui eu”, diz o padrasto,

“nem eu”, diz a mãe omissa...

e eles não têm nem quem reze

para eles, uma missa...



Eu não me chamo Isabela...

sou Maria, Rita, João...

Sou Josefina, sou Mirtes,

sou Paulo, Sebastião...

Sou tantas, tantas crianças,

que todo dia a omissão

de todos deixa morrer...



Engraçado é que ninguém,

faz passeata por mim

a imprensa não divulga,

o “figurão” não se importa,

a classe média não grita,

os ricaços dão de ombros...



Que hipocrisia é essa,

de chorar por uma só?

São tantas as Isabelas

violentadas sem dó...



Mas que importam

os escombros,

a escória da sociedade?



Se não me chamo Isabela,

não mereço piedade.

quarta-feira, 12 de março de 2008

GRITO DE ALERTA

O mundo continua definhando,
dia a dia se esvai em sofrimento:
é guerra, é fome, é o desmatamento
que aos poucos o planeta vai minando.

E nós, "humanos", nunca percebemos
o clamor do Planeta, agonizante?
Não vemos que matamos, todo instante,
o mundo que, de graça, recebemos?

Tomara percebamos, sem demora,
que a natureza sofre, que ela chora
e nós vamos seguindo, sem notar...

Tenhamos consciência de que a vida
depende da Mãe Terra, tão ferida
e temos que o Planeta preservar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

ESCRAVIDÃO

Trago em minh'alma o peso das idades
vou carregando a carga dos pesares
nos olhos trago ilusórias cores
respiro turbilhões de falsidades

Trago no lombo o lanho dos chicotes
no lenho lanço ao vento os meus cantares
espalho no ar o cheiro dos decotes
para atiçar o cio dos tutores

Trago em meu ser o som de mil tambores
trago no corpo orgasmos e estertores
no coração sufoco os meus amores

Trago dentro do meu peito os dissabores
que vou fingindo que são indolores
para aplacar a fúria dos senhores.

domingo, 4 de novembro de 2007

HÁ COISAS

Há coisas, que só aos poetas pertencem:

o silêncio sepulcral da noite e os barulhinhos diários
que contam milhares de histórias de vida

a solidão da lua no alto céu de outono
cravejado de estrelas cintilantes
e o brilho derramado nas calçadas
pelo astro-rei em tardes quentes de verão

Também são deles as gigantescas vagas do oceano
em dia de inverno, tempestuoso
e o doce correr de águas doces e serenas
de riozinho em município interiorano.

Há coisas, que só aos poetas pertencem:

a pena, que é injeção de amor nas veias,
o papel, palco vazio a ser tomado por figuras
personagens no teatro da existência

Aos poetas pertencem: o cálice da dor e da saudade,
sangue corrente pelas veias da paixão...
e o pão em forma de desejos saciados
em oferendas nos altares da ilusão.

Há coisas que só aos poetas pertencem
e que ninguém "de fora" pode compreender...

... as letras que se tornam versos livres,
causa e efeito deste ofício
de es(crê)ver.

sábado, 22 de setembro de 2007

Concerto

Dedilhas-me o corpo
com suavidade e calma,
arrancas acordes
profundos e roucos,
Maestro
dos meus sentidos.

Buscas aquela nota
dissonante
no fundo mais fundo
da flor em botão...
Instrumento de cordas
esticadas e tensas.

Ao teu toque a sonata
vai surgindo,
composição perfeita...
Breves, semibreves,
claves, sustenidos...

Até à explosão
apoteótica da orquestra!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Cartomante II

Nas cartas vejo sombras
do passado
e tento esconder,
meu desagrado...
Porque é tão difícil conviver
com tristes sentimentos
desvendados...
com silêncios e segredos
revelados

Cartomante...

Tomo tua mão
- desatino! -
Nela leio
o MEU
destino...

domingo, 26 de agosto de 2007

DEVIA SER PROIBIDO

Devia ser proibido... proibido se sofrer assim.

Não devia ser permitido

sentir essa solidão orfandade,

esse medo criança,

escondido no vão da escada...

esse desespero prenúncio de morte,

paralisante e denso,

tão tremendamente assustador.



Ah, essa saudade baleia,

singrando meus mares,

despejando meus sonhos na praia... corais...



Ah, essa lembrança paquiderme,

pisando pesado no meu peito,

peso-morto, que se deixa ficar,

sufocante, sobre mim.



Devia ser proibida essa sequidão de abraços,

esse estio de carinho,

deserto de beijo, ausência de toque...

essa falta de mãos!

Saudade mamute, antiga, colossal.



Em dias assim,

tão desesperadamente solitários e frios,

devia ser permitido voltar o relógio...

esquecer o outono que finda,

início de inverno e

revisitar passadas primaveras...

sábado, 18 de agosto de 2007

Poderia ser real

Conheci-te na Net.
Solitária e numa fase ruim do casamento, apeguei-me a ti, como náufrago a uma tábua de salvação.

Apesar de seres bem mais novo que eu, eras o meu confidente, porto onde ancorava minhas tristezas diárias e exorcizava os meus medos e todos os meus demônios.

Todas as noites, religiosamente, a não ser que houvesse algo de extraordinário, nós nos encontrávamos no icq ou no MSN.

Éramos amigos. Contávamos tudo um ao outro. Eu te contava meus planos, minhas decepções, falava do marido, dos filhos. Tu me falavas de tua mãe, da saudade do teu pai e irmã, ambos mortos, da tua solidão. E me contavas tuas esperanças, teu dia de trabalho, teus estudos (direito) e até mesmo as tuas aventuras amorosas... todas.

Maluco como só tu, falavas das tuas idas ao “Sofazão”, uma casa de swing, em Porto Alegre, dos motéis, das gurias conhecidas nas salas de sexo do Uol, de como foram as noitadas em que tu tentavas esquecer a timidez e a depressão... Contavas até mesmo os detalhes dos encontros.

- "E aí, guri? Saiste com a tal que conheceste na sala de francês"?
- "Hum, hum... Fomos ao cinema".
- "E depois"?
- "Depois, tentei levá-la prum motel, mas não deu. Ela não quis".
- "Hum... Ficaste sozinho de novo? Mas bah, 'fica triste não' ".
Dentro do peito, suspiro fundo de alívio!

Porém em outra ocasião:

- "Bah, amado, por que não apareceste ontem? Esperei-te até tarde"!
- "Adivinha! Saí com uma guria... e foi ótimo"!
- "Mesmo? E depois"?
- "Combinhamos sair de novo no 'findi'... Mas sabes? Acho que não vou não".
- "Por que? Não gostaste dela"?
- "Gostei, mas não dá pra ficar namorando só por namorar... Ainda mais com uma guria que conheci no Uol".

– Graças a Deus, pensava, ainda não é desta vez que ele vai se amarrar.

Mas, um belo dia:
- "Oi, Guriazinha. Adivinha: arranjei uma namorada". <:o)
- "É, guri? Que bom! Fico feliz por ti".

Mentira pura. Coração apertado, inveja, tristeza. Sorrizinho desenhado no pc - J e choro contido dentro do peito. Medo grande de perder-te, de que me “trocasses” pela namorada nova... afinal, ela era real e eu de "bites".

E tu dizias: "Bem capaz! Tu és a minha amada e pronto. Mulher nenhuma vai me separar de ti".

Segredos, confidências, visitas a salas de bate-papo e conversas que julgávamos “obscenas”, mas que, ao mesmo tempo eram tão pueris, tão bobas, tão gostosas, como simples e divertidas travessuras de crianças.

Paradoxalmente, sempre falávamos de Deus: fazíamos orações, trocávamos palavras gentis. Um consolo, uma risada, uma lágrima, emoção à flor da pele. Coração batendo forte, tão forte, a cada entrada na Net... a cada vez que, no icq, surgia a mensagem: “the user Gaucho is on line”.

Ah, guri! Meu guri amado!

Tu, sem saber como eras cruel, seguias me contando coisas. Detalhes das tuas intimidades com a “outra” e eu, o coração ferido, corroído de tristeza e de vontade de que fosse eu aquela com quem tu ficavas.

Tu, com o teu “e eu a ti” em resposta ao meu “eu te amo”, foste deixando que eu construísse em minha mente o sonho louco de que eras, ou de que poderias ser, qualquer dia, de alguma forma, de qualquer forma, “meu”... Meu o que? Sei lá! Amigo, amado, amante “namorante”: namorado-distante.

Longas conversas ao telefone...

- "Como tu estás? Sa(LLL)dades de ti, guriazinha!"

Tu, sempre tímido, diante da minha risada escandalosa. Assustando-te quando eu fazia alguma brincadeira e queria que tu me respondesses:

- "Bah, guria! A mãe tá aqui do lado! Tu não tens jeito!"

Um dia... um dia, assim do nada, disseste: "Terminei com a 'talzinha' – E sabes? Vou até aí te ver!"

Quase não acreditei...

- "Juras? Vens mesmo? Quando?"

Comecei a planejar a tua vinda meses antes. Como ia ser, o que iríamos nos dizer, como seria o abraço do encontro, os passeios que faríamos: na Pampulha, iríamos ver o Museu de Arte, a Igreja de São Francisco, a Casa do Baile... iríamos às compras na Savassi, à missa na Catedral de Lourdes... tu tb irias ao culto comigo. Oraríamos juntos. Iríamos à Ouro Preto, claro! Imperdível pra quem vem a Minas, quanto mais a um católico, pois lá tem dezenas de igrejas barrocas. Domingo, depois da Igreja, iríamos à feira de artesanato na Afonso Pena.

E, assim como a raposa ensinou ao Pequeno Príncipe, eu te esperei: “se tu dizes que vens às 5, já às 3 começo a te esperar”, antecipando a alegria do encontro, contando os minutos para o momento do abraço. E, já antes de te encontrar, antevendo a saudade após tua partida, que eu julgava iria ficar ainda maior.

Mas eu nunca poderia imaginar que seria como foi! Pensava que encontraria o “amigo” com A maiúsculo, o companheiro de tantas noites e tantos finais de semana de confidências e brincadeiras... mas acabei encontrando não o primeiro, mas o último amor da minha vida.

A primeira coisa que fiz, ao te encontrar no aeroporto foi, justamente, brincar. Abracei-te com força, toquei a ponta do teu nariz, ri muito, disse que a gente poderia sair dali e ir “rolar umas pirambeiras” (= ribanceiras), que era a nossa metáfora para dizer que íamos rolar um por cima do outro, nas nossas conversinhas “pseudo-eróticas” na Net.

Tu, tímido, meio calado à princípio, parece que logo te sentiste à vontade, contagiado por meu sorriso, pela minha tagarelice, minha espontaneidade, meu jeito de falar ‘”italianado”, pegando no interlocutor, agitando as mãos... mas contagiado principalmente, eu acho, pela real alegria que os meus olhos demonstravam por te ver.

E eu achei que fosse só isto... Em casa, depois de deixar-te no hotel, comentei com o meu marido: “Eu gostei muito do guri... tanto quanto achei que gostaria.”
Mas... mas, tinha gostado muito, muito mais do que pensei ou do que deveria.

No dia seguinte, a ida a Ouro Preto, com minha irmã e meu cunhado dirigindo. Nós dois no banco de trás do carro, olhando não para as paisagens, mas nos olhos um do outro. Mãos dadas, riso fácil.

Tu dizias: “Mas bah! Nem acredito que estou aqui, contigo, guriazinha! Deixa-me beliscar-te.” Minha irmã olhando, desconfiada, pelo retrovisor.

Na cidade histórica, mil passeios, confidências, lembranças, dezenas de fotos. O almoço gostoso, comida mineira que tu adoraste, caneca de vinho, felicidade pura por estarmos juntos.

Dois dias depois, chimarrão na cuia ( que tu me ensinaste a preparar, seguindo todo o ritual quase sagrado que o preparo da erva tem para o gaúcho) passando da minha para a tua mão, conversamos muito, em minha casa... Manhã tranqüila, nós dois sozinhos, esperando os meus filhos chegarem da escola a fim de almoçarmos e depois tu e eu sairmos para mais uma "tournê" pela cidade. Tu querias conhecer tanta coisa!

Eu te enchendo de perguntas, “inticando” (implicando em "gauchês) com os teus regionalismos:

- "Mas “bergamota” é lá nome pra se dar a uma mixirica?"
- "Falas tão bem, empregando lindamente o 'tu', mas dizes 'vou ir'... Isto é redundância. Dois tempos do mesmo verbo."
- "Cuca" que eu conheço é só a do Sítio do Pica-Pau Amarelo... isto que chamam de cuca no sul, pra nós, mineiros, é apenas rosca."
- "Cacetinho" pra mim é outra coisa... hehe!"
- "E cusco? Conheço cuzcuz"... risos

A conversa tomando um rumo mais sério, mais íntimo...

- "O que tu pretendes fazer da tua vida agora?"
- A"A mãe? Como está de saúde? Mais conformada com a morte do teu pai?"
- "E os concursos? Trabalho? Faculdade?"
- "Tens ido à Igreja? Tens te lembrado do nosso Senhor?"
- "Como tu estás, de verdade, meu guri? Ainda deprimido?"
- "Vem...'te senta' aqui, perto de mim... põe a cuia de chimarrão aí na mesa..."

E, sentada no braço da poltrona em que tu estavas, mergulhei os dedos nos teus cabelos recém aparados.

Só pretendia fazer-te um carinho, juro! Carinho de amiga, um afago gostoso, um cafuné, feliz por poder estar perto do amigo querido, de poder, enfim, dar rosto, toque, cheiro (ah! O teu cheiro de Senhor N!), consistência, ao nick.

“The user gaúcho” do icq, o “católico” do chat, não estava mais “on line”, mas ali, pertinho de mim, em carne, osso, sangue e batimentos cardíacos, que eu quase podia ouvir.

- "Que bom que estás, aqui, guri..."
- "Bom demais estar contigo, guria... saber que és de verdade."

Ah... a tua voz cantada, o sotaque tão lindo, o português tão correto, sem retirar os “esses” e sem tropeçar na concordância, coisa tão difícil em segunda pessoa:

- "Tu és exatamente como eu pensava, guriazinha. Divertida e inteligente. E bonita também!"
- "Bonita, eu? Na minha idade? Mentiroso"!
- "C’est vraie! Et je t’aime, lisieux, ma petit garçonete. Je t'aime avec l'amour très pür et vraie du monde” - falando francês, um biquinho acentuado pra pronunciar “lisiê”, teu sotaque era ainda mais bonito!

Olhos encontrando os teus, de repente, atraindo-me feito imã. E, sem perceber, neles me afoguei... Encontrei-te... perdi-me...

Olhos castanhos e amendoados, claros, sinceros e brilhantes.

A carícia nos cabelos passou a se estender... pela testa, pelo rosto, dedos contornando a boca, desenhando-te. Uma das mãos no teu pescoço, inclinei-me e disse ao teu ouvido, repetindo várias vezes: - “Guri...guri... meu guri amado”.

E aí eu me lembro que beijei teu rosto muitas vezes, que beijei teus olhos semicerrados, sempre dizendo: “meu guri...gurizinho querido... eu... eu quero”...

- “Dize, guria”.

- “Eu quero te beijar na boca!” - Não disse, não. Só pensei.

Mas, assim pensei e já colei a minha boca à tua. Sorvi teu hálito, bebi tua saliva na boca morna e amarga do mate... e, para sempre, ali selei o meu destino ao teu.

CONVERSANDO COM O POETA

Ah, Chico! Como tu lês a minha mente!
E não somente quando eu me calo
mas quando escrevo e nem sei bem se devo
colocar na poesia os pensamentos...

E como é que tu sabes, meu poeta,
enxergar de forma assim, clara e completa
a alma da mulher?
Sequer precisas tomar na tua a minha mão
num cumprimento...
num só momento tu me lês o coração.

Como podes, assim, sem conhecer-me
o interior desejo, perceber-me?
Saber de forma tão real e densa
o que minh’alma solitária pensa?

Como podes saber que o meu decote
é comparável a um adornado pote
que guarda em conserva, qual compota,
fino manjar, gostoso e adocicado,
o par de seios tão macios do passado?

Como podes tu saber que a minha espera
- essa bruma enfeitiçada, essa quimera -
inda me faz sentir mesmo desejo
que um dia aprisionaram, num só beijo,
e nunca mais voltou aos lábios meus?

Como podes perceber que o meu vestido
tirado do armário dos sentidos
tem cheiro de nostálgica saudade?

Como eu queria que pudesses, meu poeta,
soltar os pássaros do seio, aprisionados,
deixar que caiam as anáguas trabalhadas
com rendas e fitilhos, tão antigas!
Quem dera tu pudesses, nas cantigas,
que tu compões, deixar-me ser a musa
que a sociedade toda acusa
mas que, feliz, com ela não se importa...

Quem dera tu pudesses ajudar-me
a ser inteira outra vez, a libertar-me,
a abrir dos meus anseios a comporta!

E que eu pudesse, nos versos que componho
trancar a sensatez, soltar o sonho,
para que o amor voltasse logo à minha porta.

terça-feira, 31 de julho de 2007

FAUNA

Estico, girafa, o meu pescoço
na direção do teu rosto...

Espreito, atenta águia,
a imensidão azul do teu olhar,
pouso, leve borboleta,
na flor entreaberta dos teus lábios...

Retiro, abelha, o mel da tua língua
e teço, aranha, o fio dos meus sonhos
no dorso nu
mural dos meus sentidos.


Arrepio-me, pássaro friorento,
sob as tuas asas-tendas...

Ronrono, gata preguiçosa,
no macio novelo do teu peito.

Marcho, formiga diligente
pelas intermináveis e floridas
trilhas do teu corpo.

Enrosco-me, cobra sibilante
em tuas pernas...

ao encontro de outra cobra,
que me espera...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

OS MEUS SONHOS

Os meus sonhos são todos mortos
antes do tempo
crestados como folha seca
pelo vento

Os meus sonhos são todos abortados:
não tiveram tempo de nascer;
foram, como água, derramados
ao longo do caminho,
terra seca
que os tragou...
secou-os totalmente.

Os meus sonhos são todos utopia...

São fiapos, são retalhos, são pedaços
que não podem ser juntados, costurados...
e que voam,
encobrindo meus espaços

Não são possíveis, nem concretizáveis...

sonhos loucos

idiotas

miseráveis.

SE TU ME AMAS

Se de fato me amas, não precisas
anunciar aos quatro ventos,
gritar pelas ruas,
escancarar janelas e porteiras.

Não precisas proclamar aos quatro cantos,
nem espalhar pelos quatro continentes
ou mergulhar nos quatro oceanos
para levar o teu amor, pelas correntes.

Se de fato tu me amas, não precisas
gritar pelos quadrantes da cidade,
nem ficar repetindo, repetindo,
em cada uma das quatro estações.

E nem por quatro semanas necessitas
por anúncios nos jornais dominicais...
Também não tens que, pelas quatro fases
da lua misteriosa, nos telhados,
subir a fim de anunciares, loucamente,
o teu amor por todo o firmamento.

Basta, amado, se de fato tu me amas,
entre as quatro paredes do meu quarto,
- as quatro mãos assim entrelaçadas
e quatro olhos a brilhar, na escuridão -
deixar que o amor, sem pejo, não se cale...

e que ele assim,
silenciosamente,
fale
.
.