Há versos em que pranteio,
Em outros me exponho rindo...
A dor, às vezes, margeio
Ou cultivo-a bem no seio,
Até me ver sucumbindo.
Permito que o sentimento
Se esconda numa tragédia,
Mas no circo do momento,
Preparo a lona do alento
E a vida sirvo em comédia.
Pinto bucólicas cenas,
Floresço em áridas terras,
Enquanto mães às centenas,
Durante tristes novenas,
Rogam pelo fim das guerras.
Encerro em mim tantas crenças
E as consagro em devoção,
Mas também indiferenças
Ao compor cruéis sentenças,
Quando rejeito a traição.
Acolho o amor imperfeito,
Zombo do azar e da sorte...
Com a lira me deleito,
Faço festa no meu peito
E até dou graças à morte.
E, se levanto bandeiras,
Rasgo toda a fantasia...
Uso a cor sem brincadeiras,
Mostro tintas verdadeiras
E ao verbo deito energia.
Traço letras em quintilhas,
Com métricas e com rimas...
Neste mar de redondilhas,
Navego ganhando milhas:
Serão elas as obras-primas?
Meu presente, rico império,
Bendigo-o com humildade
E o conduzo muito a sério...
E esta alma, doce mistério,
Será a minha identidade?
Nesta vida sou uma esteta
E a poesia é diretriz,
Mas não me nomeio poeta...
Minha pena aqui decreta:
Sou nada mais que aprendiz!
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