sábado, 19 de julho de 2008

Identidade

Há versos em que pranteio,
Em outros me exponho rindo...
A dor, às vezes, margeio
Ou cultivo-a bem no seio,
Até me ver sucumbindo.


Permito que o sentimento
Se esconda numa tragédia,
Mas no circo do momento,
Preparo a lona do alento
E a vida sirvo em comédia.


Pinto bucólicas cenas,
Floresço em áridas terras,
Enquanto mães às centenas,
Durante tristes novenas,
Rogam pelo fim das guerras.


Encerro em mim tantas crenças
E as consagro em devoção,
Mas também indiferenças
Ao compor cruéis sentenças,
Quando rejeito a traição.


Acolho o amor imperfeito,
Zombo do azar e da sorte...
Com a lira me deleito,
Faço festa no meu peito
E até dou graças à morte.


E, se levanto bandeiras,
Rasgo toda a fantasia...
Uso a cor sem brincadeiras,
Mostro tintas verdadeiras
E ao verbo deito energia.


Traço letras em quintilhas,
Com métricas e com rimas...
Neste mar de redondilhas,
Navego ganhando milhas:
Serão elas as obras-primas?


Meu presente, rico império,
Bendigo-o com humildade
E o conduzo muito a sério...
E esta alma, doce mistério,
Será a minha identidade?


Nesta vida sou uma esteta
E a poesia é diretriz,
Mas não me nomeio poeta...
Minha pena aqui decreta:
Sou nada mais que aprendiz!

Sem comentários: