Já fora todo festa
o olhar que embalara o sonho
e enfrentara o frio da desilusão.
Ora, perdido no além do nada,
tentava recompor cada passo,
sentindo o punhal da traição penetrar-lhe,
sem que lhe fosse permitida qualquer defesa.
A sensação de impotência
perante as garras da maldade
tentava jogá-la no lamaçal da angústia,
no emaranhado podre de asas negras
que dançavam um ritmo frenético,
atraindo-a para o beco da loucura.
Sentia-se dominada,
presa a elos que amordaçavam seus gritos
e impediam qualquer movimento
que abrandasse a desesperança.
Tomou-lhe o pânico
ao ver-se prisioneira de si mesma,
surda aos apelos da razão,
no quarto lúgubre do medo,
contando apenas
com as últimas baforadas da brisa da fé
que também parecia despedir-se.
No mais ousado ato de defesa,
olhou ao derredor
buscando, nas portas trancadas,
uma alavanca,
algo qualquer que lhe mostrasse um rumo,
que a levasse a uma saída.
Alma ferida,
desprotegida,
arriscou, com a última lágrima,
um só pedido: Livra-me!
A fúria de uma tempestade ocasional
desprendeu a trava de uma pequena janela
e, por ela, uma réstia de luz
iluminou o rosto cansado...
Aos poucos, a cor foi-lhe devolvida
e uma estrela pousou no seu olhar.
Sentiu, então,
o chão sob os pés
e o sangue a correr-lhe nas veias.
Descobriu-se viva,
com a sensação de tudo fora um pesadelo.
Acordara!
Nada havia mudado!
Continuava plena, com vigor redobrado.
E, pronta,
ensaiou seu primeiro sorriso,
ciente de que, lá fora,
alguém estaria à sua espera.
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