I
À minha frente, o pier se estendia...
E nunca havia estado perto assim,
Que dessa vez eu não me enganaria,
Era tão forte essa certeza em mim!
E mal o sol se pôs eu já antevia,
Que novamente chegaria ao fim,
Naquele abraço insano da agonia.
Tendo de novo a sorte de Arlequim.
Lembro que a lenda, ainda mais, tortura,
Obrigando-me a ser o que não quero,
A ter paixão pelo que não venero...
Esse meu jeito envolto em amargura,
Que estende no vazio, o meu olhar,
Somente a solidão a contemplar...
II
E me parece tão incompreensível!
Ter que sorrir no meio da folia,
Na tentativa de achar o impossível,
Que não se sabe ao menos se existia...
Mas com certeza isso é irreversível!
Por mim, sorte madrasta eu não teria.
Que sonho é esse tão inconcebível,
A me cobrar tributo em alegria...
Sem nunca me entregar o que é direito,
O que já tantas vezes resgatei...
É dívida que nunca pagarei?
Pensando bem, parece-me perfeito:
Vestida de losangos coloridos,
Sigo satirizando dois maridos.
III
Mas de repente, tão solenemente,
Me diz a sina que eu posso mudar,
Viver entre as crianças, transparente,
Mas para isso eu terei que roubar.
Mas que destino! Céus! Impertinente!
Que não grafa na história o verbo amar,
Sendo malandro ou bobo eternamente,
E a pagar caro quando ousar beijar...
Desisto dessa história complicada,
Que eu já nem sei que fim eu lhe daria,
Mas sei que dela nunca terei nada.
De qualquer forma, o pier existia...
E a barca a transportar meu coração,
Mas seu roteiro é sempre a solidão!
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