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sábado, 26 de dezembro de 2009

Olhar de Jesus

Vinha chegando noite, o fim do dia,
Era a hora de quem tinha jantar.
E quem não tinha andava a mendigar,
Nas ruas da cidade, já vazia.

Alguém estendeu-me as mãos a soluçar...
Minha alma se comove, não resiste,
Ao ver aquele rosto velho e triste
E lhe oferece a sorte dum jantar.

Ele olhou-me, feliz, como quem sonha
E tinha uma expressão doce e medonha
Como sendo de amor a sua cruz.

E vi naquele olhar de peregrino,
A luz sagrada de brilho divino
Do olhar, agradecido, de Jesus.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

NATAL Século XXI

A ceia tem que ser tradicional:
Bacalhau com batatas e alguns grelos,
Rabanadas, filhós e caramelos,
Porque amanhã é dia de Natal.

Lá fora cai a neve de Dezembro
Mas na casa, aquecida, está-se bem.
Já nada lembra a gruta de Belém
E eu, talvez, também, já não me lembro.

De manhã há risinhos de alegria
E olhos esbugalhados da euforia
De verem os presentes reclamados.

Bem perto, numa casa de pobreza,
Há lágrimas de fome e de tristeza
A salgarem o olhar dos desgraçados!

terça-feira, 14 de abril de 2009

Quem…

Quem nunca chorou na vida
Lágrimas de despedida
No cais da separação,
Não conhece a dor suprema
De quem escreve um poema
Com a tinta da emoção.

Quem na vida pavoneia
A sua barriga cheia
Depois dum lauto jantar,
Não sabe quem se consome
Para temperar a fome
Com o sal do seu olhar.

Quem anda na alta roda
E veste roupas da moda
Com desenhos de paris,
Não entende o arrepio
De quem morrendo de frio
Sente-se tão infeliz.

Quem vai ao templo eleito
Bater com a mão no peito
Pedir favores a Deus,
Nem lembra do desgraçado
Desse infeliz mutilado
Sem mãos para erguer aos Céus.

Quem esconde a sua idade
Com silicone e vaidade
Enchendo a massa mamária,
Quer lá saber das crianças
Que morrem sem esperanças,
De fome, frio e malária.

Quem muda a cor do olhar
Com lentes da cor do mar
Ou de outra coloração,
Quer lá saber do ceguinho
Que tropeça no caminha
Do mundo da escuridão.

Aquele doido estarola
Que a dar pontapés na bola
Ganha fortunas sem par,
Quer lá saber do vizinho
Preso às muletas de pinho
Pois nem pés tem para andar.

Quem só tem o coração
Pra manter viva a ilusão
De que pode comprar tudo,
O seu peito é um armário,
Não o Santo relicário,
Dum coração doce e puro.

E depois vêm os poetas
Escreverem suas tretas
Denunciando a hipocrisia.
Mas olhando lá no fundo,
São iguais a todo o mundo
Exceto na poesia.

sábado, 11 de abril de 2009

Ser rico e ser ninguém

Ser rico, pode até nem ser pecado,
Mas de certeza que não é divino.
Pode ser consequência de algum fado
Que deixaram no berço do menino.

Mas ser pobre não é ser desgraçado
Pode ser um malvado desatino
Um programa de vida descuidado
Ou algum passo em falso do destino.

Eu queria ser rico de verdade
Ter a riqueza da simplicidade
E que todo o Homem fosse assim também.

E se eu fosse igual a todo o mundo
Teria o prazer alto e tão profundo
De, sendo todo o mundo, ser ninguém.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O que ela pensa de mim

Que sou amor que vem e vai embora,
Algum romeiro louco, peregrino,
Que anda a rodar nos passos do destino
Como sendo alcatruzes duma nora.

É um amor sem tempo, não tem hora.
Mas deita-me em seu colo de menino,
Mostra-me tudo que há de mais divino
Mas nunca sei o tempo que demora.

E quando, enfim, volta em seus regressos,
Ouço o som colorido dos seus versos
E logo me despeço da saudade.

O seu amor de louco é tão intenso
Que nos meus devaneios até penso
Que esses momentos são a eternidade.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Vaidade

A vaidade é um cancro que cresceu
Nesta era do tudo ou do nada
E onde a gente está tão interessada
Em se mostrar ao mundo em que nasceu.

As passarelas são o apogeu
De quem quer exibir sua fachada.
Mas lá por dentro é oco. não tem nada.
Que a alma de vergonha faleceu.

Ó versos meus, humildes, pobrezinhos,
Gritai bem alto, mesmo que sozinhos,
Para avisar a néscia mocidade

Que o que vê lá ao longe é uma miragem
Que a vaidade que os leva na viagem
Vai os largar depois, sem piedade.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Travesseiro de penas

Vestia-me de sonhos, que tramava,

Para despir-te a blusa da euforia

E beijava os teus seios de magia

Que a minha mente louca imaginava.



Sobre os lençóis que a noite amarrotava,

Meu corpo, abandonado, adormecia,

E a ilusão que sentira se esvaia

Quando a chama do sonho se apagava.



E na minha cabana junto ao rio

Escrevia os poemas do teu cio

Sob a luz do luar de muitas luas...



Na cama que tirei do meu tinteiro

Ainda há entre nós um travesseiro

Cheio das minhas penas e das tuas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O meu 2º, primeiro amor

Eu tive um grande amor, uma paixão,
Por uma doce e linda Cinderela
E a cor, azul de Céu, dos olhos dela,
Eram os focos da minha ilusão.

Mas um dia um tremendo furacão
Arrastou-me nas forças da procela,
Roubou do meu olhar a imagem bela
Que estava na moldura da emoção.

Ah! Coração, meu doido aventureiro
Que andas a procurar p’lo mundo inteiro:
Nas cidades, nos montes e nos mares.

Tu devias saber, meu desgraçado,
Que esse amor é a sombra do teu fado
E que te vais perder se o encontrares.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Se eu soubesse onde ela mora

Ah! Se eu soubesse onde moras,
Em que rua, em que avenida,
Em que escaninho da vida,
Em que tempo e a que horas?

Ah! Se eu soubesse a morada,
Onde te sentes feliz,
Em que mundo, em que país,
Em que lugar, em que estrada?

Só acho o teu endereço,
Escrito a corpo inteiro
Junto do meu travesseiro,
Nas noites em que adormeço.

E no sonho em que te deito,
Nos meus lençóis de cetim,
Tu moras dentro de mim
E adormeces no meu peito.

Fico outra vez na incerteza
Quando o sonho vai embora,
Perco o sítio onde ela mora
E encontro a minha tristesa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Dor de poeta

O poeta é um sofredor
E o sofrimento é tão forte
Pois guarda pra si a dor
Dos desprezados da sorte.

E é tão grande o sofrimento,
Que sua alma, amarfanhada,
Lhe esmaga o peito por dentro
E finge não sofrer nada.

Vai sorridente por fora,
Mas por dentro é só paixão
Que as lágrimas de quem chora,
salgam o seu coração.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Ah! Se eu fosse…

Ah! se eu fosse o papel
Onde tu pintas a cores,
Com tintas feitas de mel
A aguarela dos amores.

Ah! se eu fosse uma paleta
Cheia de cores garridas
Nas tuas mãos de poeta:
As minhas mãos mais queridas.

Ah! se eu fosse o gesto breve
Do traço elegante e leve
Com expressas emoções…

Mas eu sou mão insegura
Que quando tenta a pintura,
Só sabe deixar borrões.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A gente quer ter

Amor marinheiro
Nunca é inteiro
Nunca tem morada,
Por que esse maroto
Tem em cada porto
Uma namorada.

Um amor soldado
É disciplinado
E muito oprimido,
Então o sargento
Põe tudo lá dentro
Mas sempre em sentido.

Um amor bandido
É um amor fugido
Por algum caminho,
Mas se vem a casa
Nos pega nos vaza
Tudo rapidinho.

Um amor padeiro
Dorme o dia inteiro
E a mulher se dana,
Mas na padaria
Toda a mulheria
O acha um sacana.

O amor Sagitário
É um salafrário
É um amor ardente,
Nunca tem relaxo
É em cima por baixo
Por trás e na frente.

Amor cientista
É um amor fadista
Sempre inacabado,
Pega na menina
Explora examina
E deixa de lado.

Um amor perdido
Mesmo que sofrido
Nos deixa saudade...
Amor não se entende
Porque não depende
Da nossa vontade.

Ah! Mas o amor…
O amor a valer,
Seja ele qual for,
A gente quer ter.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A outra margem

Era garotinho, tinha, talvez uns oito anos, frequentava a escola primária que ficava a cerca de 5 klm de minha casa, lá na aldeia. Fazia o trajecto a pé, pela estrada asfaltada que atravessava a aldeia, mas logo que as chuvas acabavam e vinham as cores da primavera, regressava a casa por um trilho que passava junto do meu rio.

Nos fins de Maio, sentava-me na margem à sombra dum velho salgueiro florido, comendo uma mão cheia de cerejas que tinha colhido nas cerejeiras do caminho.

Olhava a outra margem do meu rio e tentava adivinhar o que haveria naquela margem onde nunca se viam pessoas, apenas os enormes pinheirais que partiam da margem até se perderem lá nos confins do alto da serrania, no horizonte

E pensava: que mistérios esconderá aquela margem? Haverá por lá alguma das bruxas más, ou alguma princesa encantada das que minha avó, nas noites de Inverno, à lareira, nos contava com aquela voz melodiosa que só as avós têm?

Senti várias vezes a tentação de me lançar ao rio, nadar até à outra margem para desvendar esses mistérios que me intrigavam. E, um dia em que o rio já era menos caudaloso, por falta das chuvas de Inverno, pousei a sacola tirei minhas roupas e, completamente nuzinho como tinha vindo ao mundo, lancei-me ao rio e nadei até à outra margem.

Cauteloso, caminhei alguns metros, com as mãos em concha tapando meu inocente fruto, com medo que alguma dessas bruxas más me raptasse. Um lagarto assustado a rastejar sobre as folhas secas, fez tal ruído que a meus ouvidos pareceu um terremoto.

Mais assustado que o pobre lagarto, regressei à minha margem, muito mais segura, embora muito menos excitante.

No dia seguinte voltei à outra margem do meu rio. Agora mais confiante pois minha mãe me assegurara que já não havia bruxas más nem princesas mouras encantadas.

Então, quando pus os pés na outra margem, senti-me um Vasco da Gama ou um Pedro Alvares Cabral descobridores temerários que a professorinha ensinava lá na escola.

E tantas vezes atravessei o meu rio, fiz tantas descobertas por lá que a outra margem deixou de ter interesse para mim, uma vez que o mistério que a envolvia deixou de existir e o interesse do desconhecido é que me levava à aventura da outra margem.



Pela vida fora, foram surgindo no meu caminho, novas margens do lado de lá de outros rios, com os seus encantos e mistérios, que fui desvendando até que acabado o mistério, o desconhecido que me entusiasmava, partia à procura de outro rio, com outra margem enigmática, misteriosa, que eu tentava descobrir e desvendar os mistérios que ela comportava.



Neste momento, estou na margem de cá dum novo rio que desta vez não quero atravessar. Os mistérios que envolvem a outra margem, vão continuar sendo mistérios,

Para que ela nunca perca o interesse que me desperta.

domingo, 23 de novembro de 2008

E ela disse que sim

Derretia o coração,

quando a via passar

E ardia no meu olhar

A chama duma paixão.




Morava numa mansão,

Mas trocava o meu morar

P'los fundos do seu olhar:

Sitio da minha ilusão.




Num dia quente de v'rão

Convidei-a para entrar

Nos meus jardins de sonhar

E ela disse que não.




Um não com tal evidência

Fez-me mal, andei dorido,

Barbudo, desiludido,

Quis por termo à existência.




Numa noite de luar

Estava na sua janela,

quando passei junto dela,

Notou o meu definhar.




Sorriu, triste, para mim...

Fui lhe buscar uma flor,

disse-lhe versos de amor

E ela disse que sim.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Invejoso.

O invejoso pretende ir ao mais alto

A vomitar os seus ascos de fel,

Como o bandido que pensa um assalto

Com as idéias de Maquiavel.



Nem repara que anda a falar sozinho,

Coscuvilhando com os seus botões…

Padre doido que vai pelo caminho

A ruminar os seus próprios sermões.



Sombria mente, que em dado momento,

Pensa até que a maldade é um talento

E usa-a em seu próprio proveito.



Espírito em satânica explosão,

Ciúme dum avesso coração,

A catar lixo à procura dum peito!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Não olhes a quem.

Numa tarde de inverno, agreste e fria,
Um sem abrigo veio a tiritar,
Pedir uma esmolinha pra matar
A dolorosa fome que sentia.

Levei-o à estalagem da alegria,
Sentei-me mesmo em frente a observar
Como sorvia, à pressa, o tal jantar,
Como se fosso o seu último dia.

Senti naquele olhar, ainda menino,
Um brilho irreal, talvez divino,
E que me irradiou de estranha luz.

E notei, num profundo sentimento,
Que naquele santíssimo momento,
Matei a fome ao próprio Jesus!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Furacão

Estava adormecendo, no bem bom,
Estendido na rede ao fim do dia,
Nem sequer uma palha se mexia,
No meu peito, nem sombras de emoção.

Naquela estranha e doce sensação
Não havia tristeza ou alegria,
A minha mente estava em letargia,
Como quem sente a luz duma oração.

A paz tinha chegado ao meu Rincón...
Ela chegou trazendo um furacão
E tudo ganhou cor e movimento.

E transformou meu dia de lazer
Num lindo fim tarde de prazer,
De alegria de cor e de alimento.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Musa dos olhos doces

Musa dos olhos doces, cor do mar,
Vem comigo, à noite, ouvir o fado,
Gemido pelas bocas do pecado
Onde encontramos espaço pra sonhar.

Sereia dos meus mares, dos meus desejos,
Erótico poema a corpo inteiro
Que eu guardo com amor no meu tinteiro
Para te escrever com som de beijos

Ó rainha do meu reino de amores!
Ó senhora do meu jardim de flores!
Mulher da minha louca fantasia.

Me compra que eu não valho mais que um chavo,
Para que eu seja o teu eterno escravo,
Sem direito a carta de alforria.

A flor de amor-perfeito

A semente do amor que germinou,
Na terra mais feliz do meu canteiro,
Foi escrita com a cor do meu tinteiro
Com a forma que o sonho desenhou.

O poeta ao escrever se emocionou,
Ao ver tão bela flor de amor-perfeito,
Com a medida exacta do seu peito
E odores com que o amor a perfumou.

Desejei essa flor pra minha vida,
Essa beleza pura e colorida
Que alguma jardineira imaginou…

Não te iludas ó meu coração triste,
Que a flor de amor perfeito só existe
Na mente do poeta que a sonhou.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Quando o amor acaba

Um dia o meu amor se foi embora,
Diluído nas águas do meu rio
Por que este amor de louco, amor vadio,
Não tem noção do tempo que demora.

Mas foi amor intenso em cada hora,
Nas madrugadas doidas do teu cio,
Era um amor sem regra, tão bravio,
Mas acabamos por deitá-lo fora.

O meu sono agora é um desconforto,
Por que lhe falta o cheiro do teu corpo
Pelos frios lençóis em que me deito.

E as minhas mãos ainda se extasiam,
A recordar os gestos que faziam,
Moldando-se nas formas do teu peito.