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domingo, 17 de outubro de 2010

O milagre mineiro

E foi num buraco fundo o cativeiro
Dos trinta e três gigantes, por inteiro
E a esperança foi chegando ao coração
E o são retorno à vida prometido
Nas gentes do Chile tudo é sentido
Como é vivido o pranto em oração

Até que o mundo, em peregrinação
Foi levado ao local da salvação
E ali fico cativo e prenhe do milagre
E foi em festa que a fé e o povo
Se fundiram num brado fero e novo
Em louvor pátrio que a honra consagre;

Que viva Chile, que vivam os mineiros
Os heróis vivos, valentes obreiros
Dos abismos das minas e dos medos
Que viva o amor em cada irmão chileno
Ser solidário é gesto não pequeno
E o mundo soube sê-lo, sem segredos!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Despedida

Ventos que de mim riem zombeteiros

Como ousam perturbar o meu recato?

É meu direito neste último ato

Soçobrar nos sossegos preguiceiros



D’Eolo a culpa tenho-a já formada

E não vou perdoar-lhe mais folguedo

Quando vencida a vida e o meu medo

Voar na brisa breve d’alvorada



Parto sem pena deste mundo hostil

Perdidas as razões da existência

Vergado à custa do que vi mais vil



E que p'lo esquecimento a consciência

Se esvazie da dor como ceitil

Apagado na glória da ascendência

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Terra mãe

Que orgulho, terra mãe, de haver nascido
Entre estas ancestrais, nobres entranhas
E quanto é bom em ti haver vivido
Todos meus fados e gestas tamanhas


Podem não entender minha razão
Pra bendizer os dias que aqui estou
Mas tu sabes que a minha ambição
Ao teu ventre de mãe se confiou


Em ti receberás o meu despojo
Que ao teu seio materno tornará
E se irá misturar com mato e tojo


Mas enquanto este corpo inda cá está
Permite o voto que deixo, com arrojo;
Que vivifique o que em breve não há !

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Golias

Oh Ribatejo em verduras lavrado
Orvalhos matinais na grama fina
Como era bom trotar p’la campina
Num corcel lusitano bem amado


Um orgulhoso Alter de nobre porte
Longas crinas de azeviche ao vento
E as fauces resfolgando-lhe de alento
À leveza da espora a dar-lhe o norte


Golias de seu nome, esse corcel alado
Foi o meu companheiro de folguedo
Quando os dois galopávamos sem medo
P’las margens de um tempo adocicado


Voltei ao Ribatejo e às campinas
Das bravuras dos toiros e dos homens
P’ra viver das memórias esses bens
Que guardarei da vida nestas rimas


E ao sol de Portugal resplandecente
Ali toldado pela emoção
Pareceu-me ouvir bater o coração
Do ausente companheiro, tão presente

terça-feira, 3 de março de 2009

Hóspedes indesejáveis

Há fantasmas que habitam em nós

Que partilham conosco a existência

Mais os sentimos quando estamos sós

Em sussurros de dúbia consistência.



Qualquer privacidade que almejamos

Pra resolver na nossa intimidade;

Questões d’intimo foro que tenhamos,

Se frustra nesta vã mediunidade.



Sem atropelos que a alma fustiguem

Como enxotar as gnósticas figuras

Sem as lamúrias p'las quais se exprimem?



- Pois sem lhes conhecer as espessuras,

Não há processos que se configurem

Pra enxotar os avejãos penduras!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Nós górdios

Nas palavras que não foram ditas

Nos silêncios que houveram entre nós,

Nas poupadas asperezas da desdita

Que nos deixaram cada vez mais sós,

Mais se ausenta o amor, mais periclita.



Não há réstia de esperança neste amor

Que ausências de vontade mais o matam

E emurchecem de sedes em estertor

As vozes cujos nós não se desatam

P’lo embaraço desagregador.



E assim o nosso amor vai naufragando

Neste mar-chão, sem vagas, mas imundo

Em sargaços e lodos deslizando

Até que apodrecido, vá ao fundo

Sem mais que o faça obedecer ao mando

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Por bem querer

Alma formosa, de uma essência rara,

Que mais procuras, que mais brilho queres?

- Esplendeces na terra na floral aurora,

Resplandecem no céu os teus poderes.



D’ambrósia vives, em néctares te sacias

Pairas qual fêmea que Juno protege.

- P’ra te alcançar favores diz-me das vias;

Hei de segui-las, cego, isso me rege.



Vestal, cujo altar tanto venero;

Por ti, envergarei dogma austero

Por ti, me negarei outros contentos.



E se minh’alma justa a considerares

E por bem te merecer, a aspirares

Que ela saiba da tua esses intentos.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Almas pigmeias

Aqueles que de pigmeu a alma têm

E que buscam nos nadas sapiência

P’ra lhes bastar usando eloqüência

Dar-se a imagem que mais lhes convém;



Esses a quem o crédito foi dado

Por falsidades que a verve propôs

E descobertos mostram o retrós

Perante quem sabe que foi enganado;



São falsos mochos e vates falidos

A quem dos cardos lhes compete a rama

Que a ruminem quais néscios preteridos;



Turba esfaimada da mais fausta fama

Que nesta vida sejam os vencidos

E noutras, onde inda a praga se derrama

domingo, 8 de junho de 2008

Forças da natureza

Algures na brava costa portuguesa

Que a invernia torna mais agreste

O mar batido a ventos de nordeste

Uma caverna fez nessa rudeza



P’la fraga desventrada Eolo brama

Sibilando de fúria incontrolada

Misturando-se aos sons da passarada

Que o abrigo da fraga mais reclama



Pobres gaivotas que perdem o norte

Quando do mar lhes chega a tempestade

E na caverna se salvam da morte



Quanta razão maior nesta verdade;

A natureza é feita de tal sorte

Que é deslumbrante a sua divindade!

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Gesto primordial

Esses teus olhos com brilhos de amor

Que cílios castos tentam esconder

São bem a prova de quanto langor

Te perpassa na alma de mulher



E os teus lábios que o carmim decora

Quais bagos de romã amadurecidos

Fazem que eu acordado espere a aurora

P’ra que outro dia os mostre aos meus sentidos



Todos os pormenores que o gesto encerra

Porque o teu gesto me é primordial

Levam-me ao céu mas dele me torno à terra

P’ra te esperar o gesto crucial;



Aquele que me trará o que mais prezo

O coração de volta ao seu lugar

Mitigado de fomes e desejo

De correr para o teu a se aninhar

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

TERRA MINHA

Lisboa me viu nascer
e no seu seio dormir
se um dia dela partir
lá voltarei pra morrer

Glosa:

D' Ajuda sou filho inteiro
Desse bairro onde se vê
Mais lindo em cada maré
Correr o Tejo ligeiro
Reconheço lisonjeiro
Desse amor tudo colher
Porque é fonte do meu crer
Mesmo de longe eu almejo
Voltar de novo ao meu Tejo
Lisboa me viu nascer


E de Lisboa meu Deus
É dela a minha saudade
Dessa urbe sem idade
E os meus ais são todos seus
São dela os meus apogeus
Se um dia dela partir
Terá de ser como a aurir
Pois sei que vou ter saudade
De sentir minha cidade
E no seu seio dormir



Visito regularmente
os bairros mais populares
respirando aqueles ares
Vendo de lá o poente
E ao Castelo alegremente
Sempre lá vou pra remir
Remorsos de lá não ir
Rever a minha Lisboa
Só de pensar me atordoa
Se um dia dela partir



Hoje está tudo mais novo
Mas Lisboa é mesmo assim
É sempre mulher pra mim
Muda a vida, muda o povo
E dela a visão renovo
E lá a faço entender
Que mesmo sem eu o querer
A vida pode mudar
Mas se eu um dia a deixar
Lá voltarei pra morrer

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O tempo certo

Como se de evasão vivesse o sonho

Assim proclamas vaga a solução

Que ditas como fado doce e morno

A esse pobre e triste coração

Que à mingua de emoção

Se sente ao abandono



E dizes, de ti própria, que és mendiga

Remexendo-te em busca de ilusão

Mas não se cura a ferida noutra ferida

Nem se encomenda um sonho ao coração

Porque há que dar um tempo à solução

que te devolva inteira à nova vida

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Quem sabe?

Quem sabe, se no fim deste caminho
que percorro em tropeços, como ébrio
está a vida a dizer-me que o destino
faz questão que eu acabe sózinho
qual lápide jacente num qualquer cemitério ?

Quem sabe, quando isso acontecer
se a memória me trará inda lembranças
que me tragam vontade de viver
ou se, ao contrário, quererei morrer
esgotado em desamor nestas andanças ?

Quem sabe, enfim, se valerá a pena
cruzar os oceanos como d'antes
o fizeram os nossos navegantes ?

Se por amor se fazem tantas coisas
quem sabe se ao escolher outro rochedo
não terei desvendado o meu segredo ?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

PEDAÇOS DA VIDA

Uma escolha difícil
Dignidade ou sobrevivência?

Mas que sociedade é esta, que obriga uma pessoa
no triste entardecer da vida,
a ter de confrontar-se com o atroz dilema que dá titulo a esta nota?

A velhinha pobre e com aparência de doente,
levando consigo quatro bananas, chegou, tímida,
à caixa daquela área comercial.
Do bolso do modesto avental retirou as moedas que tinha;
todas as que poupara para o derradeiro
esforço de sobrevivência nesse mês que parecia não ter fim.
Contado o dinheiro, ainda faltava um euro para satisfazer
o custo da fruta. E a idosa, envergonhada, pediu, então,
à funcionária que esperasse três dias, até receber a sua reforma,
propondo que fosse registada a divida num papelinho assinado.
- Ouvida a negativa, a senhora preparava-se para devolver
as quatro bananas;
provalmente todas as suas refeições dos próximos três dias.
Então, condoído, o cliente seguinte estendeu a mão,
caridosa mas discretamente, satisfazendo o valor em falta.
Informada pela funcionária, e depois de agradecer,
delicadamente e humildemente, ao seu espontâneo benfeitor,
a velhinha afastou-se, deixando um nó na garganta
aos que assistiram à tristíssima cena.

terça-feira, 31 de julho de 2007

CARTA DE UM MONGE A UM EXECUTIVO

Sou José de Jesus, Beneditino
De clausura sou monge e devotado
Aos alvores recito as Laudes, acordado
E à tardinha o oficio vespertino

Medito e depois rezo a Missa Santa
Antes d’anunciarem o almoço
Quando é noitinha nenhum alvoroço
Me tira um som saído da garganta

São as regras do nosso Convento
Eu e os meus irmãos as respeitamos
Passam por nós os meses e os anos
E o penhor é o mesmo; a S. Bento

Às vezes há visitas ao Santuário
Um bispo ou um vigário que cá vem
E mostramos então o entretém
Que cada um de nós tem d’usuário

Fora disso o nosso irmão Trindade
Amassa o pão que nos é alimento
Pois a vida monástica é de rudimento
E o nosso hábito, de frugalidade

E sem segredo conto que fazemos
Algumas travessuras aos noviços
E ficamos a ver seus reboliços
À procura dos terços que escondemos

Por hoje disse tudo o que queria
Em confissão de amigo pra qu’entenda
Que aqui a vida é bela e sem contenda
Ao contrário da sua, que eu não queria!

domingo, 10 de junho de 2007

Sueño prestado

Te presto mi sueño de poeta
Mi amiga, ya que los tuyo agotaste
Y esta noche soñarás despierta
Y yo dormiré amando lo que soñaste
Te vas a sentir volando en nubes altas
Corriendo los dedos en cítaras divinas
De tus dolores no sentirás la falta
Porque ellas se hicieron pequeñitas
Y contigo estará este lirismo
Que hizo de mí poeta y me dotó
De la magia de amar que hora te doy
Mientras yo, amiga, me quedaré
Vaciado de mí pero encantado
Porque finalmente és tuyo mi sueño prestado

Sonho emprestado

Empresto-te o meu sonho de poeta
Minha amiga, já que os teus esgotaste
E esta noite sonharás desperta
E eu dormirei amando o que sonhaste

Sentir-te-ás voando em nuvens altas
Correndo os dedos em cítaras divinas
Das tuas dores não sentirás a falta
Porque elas se tornaram pequeninas

E contigo estará este lirismo
Que fez de mim poeta e me dotou
Da magia de amar que hora te dou

Enquanto eu, amiga, ficarei
Esvaziado de mim mas encantado
Porque afinal é teu o meu sonho emprestado

sábado, 9 de junho de 2007

Sonho emprestado

Empresto-te o meu sonho de poeta
Minha amiga, já que os teus esgotaste
E esta noite sonharás desperta
E eu dormirei amando o que sonhaste

Sentir-te-ás voando em nuvens altas
Correndo os dedos em cítaras divinas
Das tuas dores não sentirás a falta
Porque elas se tornaram pequeninas

E contigo estará este lirismo
Que fez de mim poeta e me dotou
Da magia de amar que hora te dou

Enquanto eu, amiga, ficarei
Esvaziado de mim mas encantado
Porque afinal é teu o meu sonho emprestado

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Mau grado, as minhas mãos...

Por detrás destas mãos houve vontade
Hoje sem ela não têm expressão
Que lhes dê corpo e gesto de verdade
Pois sem vontade não há emoção
Estas mãos que aqui vês são só matéria
Sem nervos e sem força ou movimento
São as extremidades da miséria
Desta alma que as manda sem alento
Daí que as minhas mãos hoje não sejam
Mais do que úteis amparos deste corpo
que oram juntas enquanto o fim almejam
E quando enfim cruzadas sobre o peito
Me acompanharem no sono derradeiro
Que eu encontre o perdão nesse meu jeito