Mostrar mensagens com a etiqueta Affonso Romano de Sant'anna. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Affonso Romano de Sant'anna. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

ANTES QUE ELES CRESÇAM

Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios
filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores
tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada
arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com
tal maneira que você sente que não pode mais trocar as fraldas
daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário
com palhaços e o primeiro uniforme do maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e
desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca,
esperando que ela não apenas cresça, mas apareça...
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam
esfuziantes e cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos
filhos com uniforme de sua geração.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos
golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das
horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos
acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não se repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias
vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para
ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os
lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto
cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos
ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não
lhes demos suficientes hamburgueres e refrigerantes, não lhes
compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter
comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas,
engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os
pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um
esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os
primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo eChega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e
rezando muito para que eles acertem nas escolhas em busca da
felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos
próprios filhos e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão
incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles
cresçam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Eu Sei Quando Te Amo

É quando com teu
corpo eu me confundo,
não apenas nesta
mistura de massa e forma,
mas quando na tua
alma eu me introduzo
e sinto que meu sangue corre em ti,
e tudo que é teu corpo
não é que um corpo meu
que se alongou de mim.

Eu sei quando te amo:
é quando eu te apalpo e não te sinto,
e sinto que a mim mesmo
então me abraço, a mim
que amo e sou um duplo, eu mesmo
e o corpo teu pulsando em mim.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

POEMAS PARA A AMIGA

Estranho e duro amor
é o nosso amor, amante-amiga,
que não se farta de partir-se
e não se cansa de querer-se.



Amor
todo feito de distâncias necessárias
que te trazem,
de partidas sucessivas
que me levam.
Que espécie de amor é esse amor
que nos doamos
sem pensar e sem querer,
com tanto amor e tão profundo magoar?




Estranho e duro amor que não se basta,
de outros amores se socorre
e se compensa,
e nesse alheio compensar-se
nunca se alimenta,
mas se avilta e se desgasta.




Estranho amor,
ferino amor,
instável amor,
feito sem muita paz,
com certo desengano
e um deconsolo prolongado.
Feito de promessas sem futuro
e de um presente de saudades.




Chorar tão dúbio amor
quem há de...?


Estranho amor,
e duro amor,
incerto amor,
que não te deu o instante que esperavas
e a mim me sobejou do que faltava.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Despir um corpo a primeira vez

Despir um corpo a primeira vez

é um conhecimento entre dois deuses.

Não se pode profanar o instante.

E os amantes devem manter o ritmo dos altares.

Porque, embora nesses rituais haja sempre

panos e trajes para agradar o Olimpo,

é pra nudez total que o céu nos quer quebrar.

As mãos têm que ter um compasso certo.

Um andante ou claro de Bach nos gestos,

compondo a alegria dos homens e mulheres.

As mãos, sobretudo, não podem se apressar.

Com os olhos têm que aprender e, com a ponta

dos dedos, contemplar os acordes que irão

surgindo quando, peça por peça,

o corpo for se desvestindo ao pé do altar.

Antes de se tocar com as mãos e lábios,

na verdade, já se tocou o corpo alheio

com um distraído olhar sempre envolvente.

E ninguém toca um corpo impunemente.

Despir um corpo a primeira vez não pode ser

coisa de poeta desatento colhendo futilmente

a flor oferta num abundante canteiro de poesia.

Nem pode ser coisa de um puro microscopista

que olha as coisas sabiamente.

Se tem que ser de sábio olhar,

que seja do botânico, porque esse saber aflorar

em cada espécie tem de mais secreto ou distante

o que cada espécie sabe dar.

Despir um corpo a primeira vez

é conhecer, pela primeira vez, uma cidade.

E os corpos das cidades têm portas para abrir,

jardins de pousar, torres e altitudes que excitam a visitação.

Quando os corpos se tocam por acaso,

como se estivessem indo em direções diferentes,

o que ocorre é desperdício.

Não se pode tocar um corpo impunemente.

Para se tocar um corpo completa e profundamente,

num dado instante, os corpos têm que se convergir.

E convergir com uma luz diferente

A descoberta do outro é isso, é convergência.

Despir um corpo a primeira vez

é como despir um presente, por isso não se pode

desembrulhá-lo assim às pressas, embora a gula

nos precipite afoitos sobre a pele ofertada.

Não se pode com as mãos infantis,

descompassadas, ir rasgando invólucros,

arrebentando cordões com gula que às crianças

só têm nas confeitarias antes da indigestão.

Um corpo é surpresa sempre.

É o que se vê nas praias,

nessa pública ostentação, nesse exercício coletivo

de nudez negaceada, em nada tira a eufórica

contentação do ato, quando os dedos vão

desatando botões e beijos,

e rompendo as presilhas das carícias.

Despir um corpo a primeira vez

não é coisa de amador.

Só se o amador for amador da arte de amar,

porque o corpo do outro não pode ter

a sensação de perda, mas a certeza de que

algo nele se somou, que ele é um objeto

luminoso que a outros deve iluminar.

Um corpo a primeira vez, no entanto,

é frágil e pode trincar em alguma parte.

E os menos resistentes se partem,

quando aquele que os toca,

os toca apenas com cobiça e nunca

a generosa mansidão de quem veio

pela primeira vez, e sempre, para amar.