domingo, 17 de agosto de 2008

Felicidade competitiva

" Uma vez que este tipo de felicidade tem que ver com o alcançar de uma conclusão triunfante, está relacionado com a categoria da felicidade do empreendedor, embora com uma diferença fundamental. A Felicidade do Alvo depende da concretização de um objectivo pessoal, mas não necessariamente às custas de um adversário. No que diz respeito à felicidade competitiva, a vitoria é sempre conquistada às custas de um rival, por norma através de um esforço enorme. Fica-se sempre espantado com a condição exultante de um pugilista de pesos pesados ao ser entrevistado imediatamente a seguir a ter ganho um combate esgotante de quinze assaltos. O rosto que foi esmurrado de forma tão brutal, com soco atrás de soco, está no écrã da nossa televisão, em grande plano, nitidamente radiante de felicidade e com um sorriso estupidificado, como se tivesse tido uma visão, em vez de um enorme punho enluvado a aproximar-se repetidas vezes à velocidade da luz, e com a força de uma marreta. É um tipo especial de sorriso, aquele que vemos no rosto de todos os vencedores, independentemente da forma como derrotaram os seus adversários, e é quase impossível de imitar. O pintor Francis Bacon disse : " Não há dúvida de que tenho ' o grito ', mas não consigo captar o sorriso...

As qualidades do sorriso em momentos de felicidade intensa são o mais difícil de capturar para artistas e actores, mas são absolutamente inconfundíveis quando os observamos. A mais preversa definição de felicidade com que nos podemos deparar é a seguinte : ' a felicidade é uma sensação agradável, que advém da contemplação do sofrimento de outro '. Se isto arrepia, devemos lembrar-nos de que cada vez que nos rimos de uma anedota, somos culpados de uma versão mais moderada disto mesmo, pois em quase todas as anedotas existe uma vítima cujo mal-estar nos diverte, cortesia de um ou outro tipo de ' casca de banana '. Uma forma menos preocupante desta definição é : ' A felicidade é um prazer que não se partilha com outros '. Em ambos os casos, estamos a lidar com a felicidade competitiva, onde, desarvegonhada ou vergonhosamente, sentimos felicidade por estarmos em vantagem em relação ao outro.

A forma "externa" deste tipo de felicidade é o género mais desagradável de todos. É a felicidade do sádico e do atormentador. Para eles, inflingir dor sobre uma vítima indefesa oferece-lhes a derradeira onda de prazer. É o desamparo da vítima que constitui a chave para o seu tipo particular de actividade. Se a vítima conseguir ripostar, o prazer é arruinado. Eles procuram a subjugação total, o que transforma instantaneamente o sádico ou o atormentador na figura dominante da relação. Isto faz dele o ' vencedor ' poderoso e continua a explorar esta situação, inflingindo dor à vítima. De cada vez que o faz, o sofrimento visível da vítima reforça a sensação de poder do atormentador sobre outro ser. É a forma de o cobarde ser um vencedor.

Existem quatro fontes principais de felicidade através da crueldade : tortura mental, tortura física, violação e assassínio. A tortura mental, muitas vezes, dá prazer a um indivíduo tirânico que se encontra numa posição de superioridade social. O magnata arrogante, o patrão insensível, a mais elevada patente militar - todos eles podem impor a sua crueldade aos subordinados que não se encontram em posição de retaliar. Estes, por sua vez, atacam os companheiros mais fracos, numa tentativa de recuperar o respeito por si próprios, após sofrerem uma humilhação. Isto transformou-se na síndrome ' o paquete deu um pontapé ao gato ', onde a crueldade tem início no topo de uma hierarquia social e termina na base. As vítimas mais comuns estão, por vezes, no próprio seio familiar...as pessoas que têm uma família feliz tendem a pensar que este tipo de violência é algo de muito raro..infelizmente, não o é... "

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