Esta é só uma inspiração que vem sem poema.
Nunca conheci quem se dissesse cobra.
Todas as pessoas que eu conheço são da nobreza o emblema.
Todas de espírito puro, sem dobra.
Fieis às amizades, verdadeiros exemplos de cristandade.
Todas as pessoas com as quais falo,
Das quais leio alguns escritos, têm halo da santidade o halo
São rainhas da bondade e da lealdade.
Nunca fizeram uma fofoca,
Jamais teceram uma intriga,
Nem sobre alguém inventaram uma potoca;
Não entram em briga;
Nunca cometeram um pecado.
Nunca sentiram inveja, ciúmes ou despeito.
São todas princesas, semi Deusas, sem defeito.
E eu tantas vezes pecadora,
Tantas vezes vil, mistificadora.
Tantas vezes invejosa, despeitada, ciumenta.
Eu, a cobra peçonhenta!
Eu que carrego em mim tudo do feminino nascente.
O poder de convencimento da serpente
Que enfeitiçou Eva no Éden e enganou Adão
Dizem até que era própria figura do cão.
Eu, que como uma cobra rastejo,
Para ser aceita neste mumdo de desejo.
Eu que, feito uma jibóia, envolvo meu amado
Num abraço, no qual o engulo sem mastigar.
Eu, uma víbora que, fustigada,
Sou uma coral, de vermelho e preto pintada,
Pronta para meu veneno destilar
Em quem meu caminho cruzar.
Eu, uma cascavel que troca a pele sempre que me convém
E a cada troca de pele, adiciono um guiso para sinalizar
a todos “estou aqui”, perigo! Nem vem, que tem!
Eu verifico que sou a única que se assume cobra
Neste virtual mundo, onde nada se desdobra e tudo se cobra.
As pessoas podem falar umas das outras;
Criticarem-se mutuamente. Desrespeitarem-se intimamente.
Intrigarem-se entre si; ficarem despeitadas,
Sentirem inveja, armarem barraco,
Desejarem das outras os amores
Mas cobra, serpentes... Nunca! Vamos falar de flores.
No intimo xingam; no aberto puxam o saco.
E eu que não ouso colocar o meu dedo em riste
Para apontar ninguém, neste ato triste.
Eu, cobra venenosa, não ouso fazer como o macaco
Sentar no meu rabo para falar da alheia cauda.
Mas serei a única cobra neste reino encantado?
Por que deixar a vida rodar nesta doida ciranda inventada?
Se são tão boas as pessoas, tão virtuosas, tão puras
Por que não perdoar, esquecer, resgatar a brandura?
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