terça-feira, 20 de maio de 2008

O que ficou em mim

O que ficou em mim, depois da juventude

senão lembranças e mais lembranças

que o tempo se encarregou de misturar

na minha vida quase como um tempero apurado

guardado hermeticamente, para ser usado

em pequenas e ínfimas doses, todas as vezes

que eu me vestisse de saudade



O que registrei em papéis permanecem vivos

mas envelhecidos, tais como papiros esmaecidos

muitas das minhas histórias ficaram sem fim

sonhos tricotados até um ponto

porque acabaram-se as linhas para continuar

e um vácuo foi se formando

tornando um pouco mais cruel essa passagem

com uma leveza que o tempo predador

teimosamente me obrigou a partilhar



Não tenho como reconstituir

com veracidade a minha juventude

que naquela época em momento algum

me vi sem o amanhã

e hoje mais sábia sei que tive o ontem, tenho o hoje

mas não sei se o terei

ainda que todos nós seres humanos

possamos usar de um livre-arbítrio

há em mim um medo de apodrecer

fenecer como as árvores e as flores



Não me obriguem por favor

dizer que enfrento toda essa mudança

com aceitação e coragem

talvez pelo fato de ter mutilado uma grande parte

dos meus mais lindos sonhos

ficou guardado dentro das minhas entranhas

um desejo magoado, latejando

fingindo ser leniente

e com toda razão ardiloso

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