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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

ANTES QUE ELES CRESÇAM

Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios
filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores
tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada
arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com
tal maneira que você sente que não pode mais trocar as fraldas
daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário
com palhaços e o primeiro uniforme do maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e
desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca,
esperando que ela não apenas cresça, mas apareça...
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam
esfuziantes e cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos
filhos com uniforme de sua geração.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos
golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das
horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos
acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não se repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias
vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para
ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os
lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto
cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos
ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não
lhes demos suficientes hamburgueres e refrigerantes, não lhes
compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter
comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto.
No princípio iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas,
engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhos.
Sim havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os
pedidos de chicletes e cantorias sem fim.
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um
esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os
primeiros namorados.
Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo eChega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e
rezando muito para que eles acertem nas escolhas em busca da
felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos
próprios filhos e que não pode morrer conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão
incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles
cresçam.

domingo, 11 de maio de 2008

MÃE

Antes de Ser Mãe ...
Antes de ser mãe, eu fazia e comia refeições quentes.
Eu usava roupas sem manchas.
Eu tinha calmas conversas ao telefone.

Antes de ser mãe,
Eu dormia tão tarde quanto eu quisesse
e nunca me preocupava com que horas iria para a cama.
Eu escovava meus cabelos e tomava banho sem pressa.

Antes de ser mãe,
Minha casa estava limpa todos os dias.
Eu nunca tropeçava em brinquedos, ou pensava em canções de ninar.

Antes de ser mãe,
Eu não me preocupava se minhas plantas eram venenosas.
Eu nem sabia que existiam protetores de tomada...

Antes de ser mãe,
Ninguém nunca tinha vomitado ou cuspido em mim.
Eu nunca tinha sido mordida nem beliscada por dedos minúsculos
Ninguém nunca tinha me molhado.

Antes de ser mãe,
Eu tinha controle da minha mente,
dos meus pensamentos, do meu corpo,
e do meu tempo.
Eu dormia a noite toda!!

Antes de ser mãe,
Eu nunca tinha segurado uma criança chorando para que pudessem fazer exames ou aplicar vacinas.

Eu nunca havia experimentado a maravilhosa sensação de amamentar e saciar um bebê faminto.
Eu nunca tinha olhado em olhos marejados e chorado.


Eu nunca tinha ficado tão gloriosamente feliz por causa de um simples sorriso.

Eu nunca tinha sentado tarde da noite só para admirar um bebê dormindo.


Eu nunca tinha segurado um bebê dormindo só porque eu não queria deixá-lo.


Eu nunca havia sentido meu coração se quebrar em um milhão de pedaços porque eu não pude parar uma dor.


Eu nunca imaginaria que algo tão pequeno pudesse afetar tanto minha vida.
Eu nunca soube que eu amaria ser mãe.

Antes de ser mãe,
Eu não conhecia a sensação de ter meu coração fora de meu corpo.
Eu não conhecia a força do amor entre uma mãe e seu filho.

Antes de ser mãe,
Eu não conhecia o calor,
A alegria,
O amor,
A preocupação,
A plenitude,
Ou a satisfação de ser mãe.
Eu não sabia que era capaz de sentir tudo isso com tanta intensidade
Antes de ser mãe...

domingo, 20 de abril de 2008

A Mulher Madura

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e ai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou e concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela imensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Limites do Amor

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, l
ivre das cercas,
te despeça de mim,
sofrida,na direção de outro amor
que pensas ser total e total
serános seus limites da vida.
O amor não se mede
pela liberdade de se expor
nas praçase bares,
em empecilho.
É claro que isto é bom e,
às vezes,sublime.
Mas se ama também de outra forma,
incerta,e este o mistério:-
ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.